A pintura acima foi a última que fiz sob o tema, pássaro, motivo também escolhido por mim (e pela colega Margarida) para o último ateliê de barro. Dediquei várias meditações e algumas pinturas aos pássaros. Meditação cujo o foco não é fixo é pouco comum. Meditar com pássaros é contemplar a céu aberto, a espreita que venham em bandos estrategicamente organizados em triângulos ou a espreita do bote n’ água, algo impossível de acompanhar com precisão, mas com a prática a atenção se aprimora.. Observar os animais me permite extremos de emoções, do assombro ao encantamento.
“Toute oeuvre d’ art est l’ enfant de son temps et, bien souvent, la mère de nos sentiments.”
Toda obra de arte é criança de seu tempo e frequentemente a mãe de nossos sentimentos.
Assim Kandinsky introduz seu livro: Do Espiritual na Arte e na Pintura em Particular.
No 2o. ateliê de barro da última aula, o prof. Álvaro mencionou Kandinsky através do livro acima citado, e o seu entusiasmo e apropriação perfeita à ocasião, repercutiu em mim. Procurei pelo meu Espiritual na Arte em francês da editora Folio e o reencontrei – quem quiser pra xerocar está a disposição. Tenho também uma velha tradução em português dos tempos de faculdade, mas desse não sei.. É possível que alguns de meus colegas não conheçam Kandinsky. Por isso achei interessante citar alguma coisa de seus escritos por aqui. O cara é imperdível! Da mais pura e estruturadora poesia: Naturalmente incita à inspiração. Quando fui apresentada ao mestre dos mestres no período final da universidade, pelo também inspirador professor Paulo, compreendi não apenas o que fazia, como iniciei análise sobre o entorno, o chamado, métier.
Interessante como reviver é viver! Não me canso desta forma de encantamento, onde olhar-de-novo é sempre oportunidade de renovação.
Kandinsky é transcendental, reúne opostos da estruturação formal, especialmente na pintura integra geometria à plasticidade orgânica das cores.. Como mencionei, foi ele quem me ajudou a enxergar da pintura ao métier. A interpretação tendenciosa d’ alguns professores da universidade muitas vezes mais confundia do que nos ajudava a crescer. E quando se é muito jovem - entrei na ufrj aos 17 – pode-se comprometer seriamente por preconceitos alheios. Infelizmente ainda temos uma educação baseada em dogmas, e por conseguinte, pouco intuitiva. Mas há mudanças no ar e a tal sociedade, apesar dos pesares, parece ganhar alguma consciência, embora ao meu ver, a passos de cágado.
Fiz 6 anos e meio de UFRJ. Entrei via cenografia, 1 ano e meio depois transferiria meu curso à Pintura. Somente esta última pede por currículo um mínimo de 5 anos. Uma espécie de curso clausura, cujo período final de mergulho no ateliê, nada fica a dever a qualquer residência médica, onde o aprendiz deve concentrar-se de corpo e alma na prática de maneira a não iludir-se com a mesma, mas se descobrir inteiramente nela, por ela, ela.. Por aqui, ocidente, ninguém prepara o Homem para tal entrega , funciona justamente ao contrário, na nossa filosofia impera a dispersão de consciências e consequentemente, atos. Descobri na prática do ateliê o que poderia ter descoberto bem mais cedo caso tivesse nascido na terra dos olhos puxados. Sem dúvida, por aqui, grande parte de nossos mestres, tendem mais a nos confundir do que a esclarecer, são também eles frutos dos maus hábitos que perpetuamos na forma de preconceitos e pretensões, uma sociedade que não cabe mais na ilusão de seu imenso e doente ego. Hoje percebo o quão corriqueira é a ignorância que permeia as práticas. São as pragas dos métiers. Artifícios de uma razão sem paradeiro, com as quais se defende espaços e delimita-se poderes. Enfim, pragas vazias, pragas de espírito! Fizemos da ignorância filosofia de vida.
Embora eu fosse de todo ingênua e um bocado ignorante (associação infernal! É, eu sei..) , quem um dia já se viu selvagem me compreenderá - assumi a escola de belas artes da ufrj não por ignorância, mas por total ausência de escolha. Na época não havia por aqui outra alternativa pelo ensino das artes plásticas, e ainda que a EAV do parque lage estivesse na ocasião aberta, o que eu queria era fazer universidade, e de preferência a que fiz apesar do descompasso na adoção de uma filosofia de arte herdada do padrão europeu com uma defasagem histórica de pelo menos 400 anos. Belas artes significa tradição movida à cânones e representações, ao meu espírito soava como, ‘métiers em falso’. Algo que não satisfazia a minha natureza. Sem alternativa me submeti. A parte boa, a biblioteca da universidade é um convite ao êxtase, as oficinas também são excelentes, destaco couro e madeira, embora por este lado tudo funcionava com louvor.
Independente das idas e vindas, a condição formal de minha pintura seria para sempre marcada pela busca do espaço comum que reunisse: figuração à abstração. O que bem sabemos foi historicamente, mercadologicamente, enfim, socialmente promovida sob a filosofia do separativísmo. Désolé - como diria a profa. Francimar – mas não posso prescindir da arte como possibilidade de encontro.
O prof. Paulo da pintura VI me apresentou não apenas Kandinsky em espanhol mas também o livro : A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen do alemão, Eugen Herrigel. Anos depois pude reviver espontâneamente seus ensinamentos em mergulho meditativo. Trata-se do relato do arqueiro-aprendiz, o próprio autor Herrigel. Ao posicionar a flecha no arco produzindo tensão entre as partes – tensão máxima – inicia-se na arte da técnica(pós exercícios de respiração) que por sua vez não pode ser ensinada, pois precisa ser vivída, uma vez que somente poderá ser compreendida em plenitude através da experiência e incansável prática necessária ao intento: Atingir o alvo com a flecha, destituindo a intenção do mesmo (ou seja, um nó lindo na mente ocidental, habituada pelo racional) – esquecendo-se de si - abrindo espaço à presença de espírito. De certa forma, ‘pensando sem raciocinar’, pensando por inteiro.
Eis o sentido da meditação: Quando a flecha, o arco, a tensão, o gesto na forma que imprime o Ser desperto, o alvo, enfim, todos os elementos desta arte tornam-se um só. Não havendo mais elementos dispersos, mas consciência que centrada em si, reune e integra.
De volta à Kandinsky… :
“A forma, em sentido estrito, é a delimitação de uma superfície em relação a outra. Todo exterior compreende necessariamente um elemento interior (mais ou menos aparente), toda forma tem um conteúdo interior. A forma é portanto a exteriorização de um conteúdo interior.”
“Estes dois aspectos da forma são ao mesmo tempo seus dois objetivos. Por isso a delimitação exterior é totalmente eficaz quando serve para manifestar da maneira mais expressiva o conteúdo interior da forma.”
“O artista é a mão que, pela prática conveniente do toque, coloca a alma humana em vibração. É portanto claro que a harmonia das formas deve repousar unicamente sobre o princípio da entrada em contato eficaz com a alma humana. Esse princípio foi aqui definido como o princípio da necessidade interior.”




















