Especialidades Explícitas

Junho 30, 2009 by Andreaha San

Enquanto aguardo a prova do livro de fotos que produzi com a turma da especialização, andei pensando como este trabalho serviu pra que pudesse reconhecer todos os colegas por seus nomes e trabalhos. Ocorreu enquanto montava a capa e me preocupava em representar cada um através de um fragmento da imagem de seu trabalho. E assim se deu o todo: nossa capa contem o fragmento de cada um de nós pela manifestação de nossa totalidade. Eu só acrescentaria que tal manifestação é fruto também do ‘agora’.

É claro que somos todos muito mais do que nossas partes. Mas com um cérebro que nos pré-dispõe à percepção pelas partes, seria difícil neste primeiro momento uma análise profunda ou complexa do todo. 

Por fim, dei conta que em boa parte as especialidades (vocações, qualidades..) dos colegas surgem de maneira explícita pela relação de sua imagem com a frase. Deixo aqui alguns exemplos, os quais não tive escolha, simplesmente se fizeram presentes:

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O Elissandro - escritor, contador de histórias, sensível e romântico como raros humanos conseguem sobreviver - se expressa pelo encanto da escrita de um outro escritor. Eis aí sua refinada busca existencial, através de Pessoa:

frase:
“Com toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra. E afinal, tem alma dentro?” Fernando Pessoa.

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O Celestino é um cara sagaz, busca os próprios mistérios nas considerações astrais que remete ao outro, é o guru astrológico da turma. Foi apreendido pelo próprio destino ao se envolver com o drama do rapaz que vive na rua e tem na carta escrita à mãe, mas não revelada a mesma, a prova de seus sentimentos o que lhe confere certo valor. Celestino ao lhe doar os ouvidos, serviu-lhe de mãe, e o rapaz em retribuição adotou Celestino indo ao seu encontro sempre que o vê. Celestino não previu o próprio destino do qual tentar fugir.

frase:
“Eu te vejo. Você me vê?”

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A Adriana  Patrícia tem um trabalho incrível com pilotos de avião,  nos revelou a implementação de um trabalho psicológico através da comunicação pelo olhar para que os pilotos pudessem se comunicar com a precisão que lhes garantiriam a sobrevivência. Um ritual visceral de segundos envolvidos. Qualquer ruído pode ser fatal, e  no caso, o mesmo ocorria no entrecruzamento de olhares entre homens e mulheres: a questão sexual../ Tensão entre: concentração absoluta e a perspectiva do prazer e relaxamento.

Sua frase, concentrada por estatísticas globais (mundo) e relaxada pela individualidade (uno):
“Dilúvio Comtemporâneo: Lixo: BR: 1000.000 ton./dia; Rio: Reveillon: 600 ton.; SP: 12.000ton./dia; Mundo: 500.000.000ton./ano; Foto: minha gota/semana.”
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De todos os acima descritos, a Isabel é a que menos conheço. Mas gostei muito desta sua frase que não à toa fecha nosso livro. A foto do buraco cheio de lixo e felicidade.. e as pessoas com garrafas de cerveja passeando pela Lapa a noite, revelou uma boêmia e das boas. Se não for psicóloga tem o espírito de uma, a julgar pela análise do lixo. Caso contrário só lhe resta ser artista.

frase:
“O dia está cinza, triste e só. O lixo mostra que alguma coisa aconteceu ali. O que era? Não sei. Parece que sobrou um buraco cheio de felicidade.”

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A Ana Letícia tem qualidades especiais e grandiosas, geralmente ela me dá carona. O papo é alto astral, cheio de humor, sabedoria e mistérios. Gostamos de coisas parecidas e estudamos no mesmo colégio, mas eu não lembrava dela.. Como? Me pergunto!? Ah, agora eu lembro, naquela época sofria de uma miopia de 6 graus, era cega e vivia quase como uma autista, interiorizada até o útero. Mas a Analê é isso tudo aí, e mais alguma coisa. Tem no perfil certos excessos de expressividade que a fazem produzir caretas espontâneas(tipo soluços da expressão), não à toa seu viéis de atriz.. e no coração, uma imensidão.

frase:
“Ser consumido, tudo ao mesmo tempo agora…”
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A Flavia só tinha dois caminhos, ser psicóloga ou detetive particular (embora sei que é colega de pintura) pela perspicácia que dói. Possui um espírito minuciosamente desperto à Vida e o prazer com que absorve e transmite o conhecimento. Acredito que sua monografia, ao falar da morte, além de alento aos seus pacientes, e ao seu desejo na compreensão do mistério, é o contraponto inequívoco da paixão pelo conhecimento, a Vida que traz em si.

frase:
“Zoom, ilusão de proximidade e intimidade.”
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Marta é jornalista, conheço um monte deles, trabalhei com um tanto.. À mim parece que ela vai muito além da ideia de sua especialidade enquanto não apenas espia mas aprofunda-se em novos desafios.  É daqueles seres que carregam muito consigo, tem a marca de seu tempo, a consciência em movimento e o espírito de quem usa a comunicação como instrumento de uma sociedade diferenciada, melhor definida em sua diversidade.

frase:
“Imaginários que se formam pelo jogo dos contrários, pela desconstrução de sentidos, pela alegoria da cultura do espetáculo.”

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Quando li a frase da Aracelli, me lembrei dos ditados dos tempos de colégio. A frase possui até licença poética na exclusão das vírgulas, como ela didaticamente me explicou. Enquanto obedientemente a escutava, embora não precisasse da explicação, pensava: como é bonito uma vocação em processo, ainda por cima quando em exercício se dá o direto aos descaminhos. Ah, isso é poesia!  Se a Aracelli não fosse professora de português o mundo estaria perdido e a gente também, profa Aracelli me ajudou um bocado na revisão do livro.

frase:
“Amendoim jujuba confete bala. Apenas 1 real. Consumo pelo querer. Puro e simplesmente. Apenas 1 Real. O desejo pelo doce, o mesmo Desejo que temos hoje pela vida: açucarado, mas amargo.”
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Depois, mais adiante eu completo, depende do tempo.. Tem o: Lincoln, a Sheila, as Sônias, a Paula, a Angela, a Anna Paula, a Elsa, a Roseli(única colega que não tenho a fisionomia na cabeça), a Michele e a Margarida.

Ateliê de imagem – Mais uma vez, Manequins

Maio 26, 2009 by Andreaha San
manequins na vitrine manequins na vitrine

Pensei em como relatar a nossa incursão pelas ruas do Centro do Rio, quando passamos pela feira de antiguidades perto do cais, Arco dos Teles, ccbb, casa França Brasil e por fim pela exposição no Largo das Artes em homenagem à Maria do Carmo Secco, mãe da Aninha minha amiga de outros tempos.. Abandonei a cronologia e exponho inicialmente aquilo que parece ter se transformado no motivo deste meu ateliê: Os Manequins. Imagens por mim inconcebíveis. Tento refletir sobre a insistência com que surgem do nada e naturalmente se postam à frente de minhas buscas focadas em outros assuntos me reconduzindo sem razão de ser, talvez por instinto assumo a captura de suas imagens como se fossem desde sempre minhas.

O que ocorre, remete ainda ao comentário do artista Amador Perez : “…a imagem é que nos escolhe.. “ Quando investimos no processo esta espécie de inversão de papéis torna-se evidente, corriqueira e deliciosamente fluente por que instaura uma aventura misteriosa a qual investimos nossa própria constituição.

Segundo excitadas atendentes, estes manequins aguardam pelo estilísta Yves Saint Laurent, separados de nós, o público, por uma porta de vidro. Como se eu já não os atraísse por intermédio de vitrines, seus reflexos e imagens derivadas em frações as quais reafirmo mais uma vez: por mim inconcebíveis.

Resolvi num impulso fazer as fotos em p e b. Depois percebi que desejava tirar partido de um claro escuro sutil sem grandes contrastes, reduzindo a visibilidade. Desejava com isso tornar visível certa ambiguidade, buscar o meio caminho no tom com o qual se revela a imagem. Meio razão, meio intuição - entre mundos.

cadê o Yves

cadê o Yves

a sombra do Yves

a sombra do Yves

Gêmeos Remotos

Maio 26, 2009 by Andreaha San
 no hall de entrada a 1a peça
no hall de entrada a 1a peça
O início da exposição dos Gêmeos com o carro homem. O que mais me chamou a atenção, comoveu, atiçou os sentidos foi um garotinho que rodiou a peça e a investigou como eu fazia quando criança, abstraindo completamente do controle adulto. Jung no seu livro de memórias também fala de uma incursão num museu (algo do gênero) em que ficara encantado com o conteúdo apreendendo todo aquele mistério da história humana como quem se reconhece, enquanto sua tia o arrastava para a saída.

Foi esquisito não poder registrar as pinturas dos Gêmeos, elas me causaram sentimentos adversos, teria sido bom fotografar. A palete é similar a que eu utilizei na minha individual: Brinquedos, as cores próximas aquelas do conjunto de pilots proposto às crianças através da indústria-escola, o toque pop do contemporâneo. Mas essa ideia do sujeito que emerge junto à filosofia do urbano e se torna pop é um engraçado pois recorrente paradoxo – de ‘marginais à pop-star’. Como filosofia de vida, a reprodução da reprodução da reprodução… Filofofia de vida é sacanagem! A instituição da arte me dá arrepios, embora seja nas políticas culturais que está a nossa possibilidade de caminhar, é na instituição de um modo operante que se perde a noção de sentido.  A graça da caminhada é  desvendar a própria trilha. Talvez o que tenha mais mexido comigo foi rever esta palete num momento em que a transformo radicalmente, e ainda assim por que não a percebia por aí e agora vejam só meu! Comparsas em sampa! Gostei imensamente das mandalas de fios-barbantes nas paredes.

imaginem o que ele está imaginando

imaginem o que ele está imaginando

o que seria das crianças (nós) sem os adultos?

o que seria das crianças (nós) sem os adultos?

mundo interior

mundo interior

vista superior

vista superior

cabeção

cabeção

  

Arcos dos Teles

Maio 26, 2009 by Andreaha San

No caminho o arcos do teles é um colírio. E  sinos ‘de enfeite’ pendurados pelas ruelas me chamaram a atenção. Eu nunca havia notado que era mais de um, pelo menos não com uma máquina na mão em busca de motivos.

Evocavam em mim a memória do som, a função do sino, a situação de enfeite.. a destituição da função, a imagem perdida no ar e o som ausente

surge uma igreja e um sino

O Vermelho que nos Une e a Técnica de cada Um

Maio 26, 2009 by Andreaha San

Uma de minhas especialidades é fotografar em ambientes fechados com a câmera no manual sem jamais conseguir ajustar foco a imagem.

Certa vez recebi uma aula de um colega fotógrafo, mas admito que me concentrava mais no seu fascínio pela técnica e todo o amor que ali se traduzia do que no meu próprio aprendizado. Percebi com clareza d’alma que não me era realmente importante – em ambientes fechados – aquela técnica que para ele era fundamental. Particularmente eu suspeitava que sempre busquei estes borrões de luzes, quando os movimentos desenham caminhos e registram passos na refração das cores. Um louvor a ignorância sob a luz de minha consciência.

Nas 3 fotos abaixo, resolveram tirar fotos da Ana Letícia, da Sônia e minha por que cometemos o ato sincrônico de usar a mesma cor, o vermelho, e sentar uma ao lado da outra. Foto minha não tem aí, nem pensei em tirar. Me pareceu natural registrar quem estava me registrando, os ‘não vermelhos’, especialmente enquanto tentavam se apropriar de nossas almas coloridas. Se a nossa querida professora Francimar estivesse presente certamente mencionaria o lado bom da inveja.

Analê e seus raios de luz

Analê e seus raios de luz

Sônia red

Sônia red

turma paparazzi

turma paparazzi

Cabelos de Tufão Caramelo no Largo das Artes

Maio 26, 2009 by Andreaha San

Na galeria do Largo encontramos uma espécie de tufão feito de cabelos caramelos presos por grampos.

Que imagem interessante! Um tufão é algo que não se imagina assim parado – é algo dinâmico, foge a vista. Imaginamos os efeitos destrutivos que produz. Por outro lado o objeto exposto de tufão somente tem a forma, naturalmente mais atrai e seduz do que repele. Existe em seu conteúdo o fetichismo implícito e propício ao toque por intermédio da massa cabeluda cor de caramelo quente e seus grampos compondo o ‘penteado’ do tufão. Uma reunião de elementos aparentemente irracionais elaborados com matéria e trejeitos do mundo consciente.

Por fim precipitam ao toque, confesso que tive vontade de reposicionar alguns grampos e sentir a textura daquele cabelo.

tufão de cabelos presos por grampos

tufão de cabelos presos por grampos

panorâmica do belo espaço
panorâmica do belo espaço

 

Autos pra Respirar

Maio 24, 2009 by Andreaha San

As vezes tudo o que a gente quer é pedir ‘autos’ da vida.

Não, não se trata de estigma suicída. A verdade é que a vida contemporânea para alguém como eu que já viveu algumas décadas, nem tantas, mas o suficiente para poder comparar o ritmo slow motion da contemplação ou divagação de minha infância, à esta aceleração em boa parte sem sentido que em paradoxo é a sensação da atualidade.

Apesar da enorme miopia de nascença que ninguém enxergava e sabe-se lá se algo fazia para subvertê-la aos olhos dos outros, havia em minha infância um outro tempo bem nítido em certo sentido. Era quando brincava de polícia e ladrão entre os meninos e  percebia o quão fácil era perder o  jogo pra eles, e em defesa gritava: ‘autos!’ A senha para sair de cena. E como num passe de mágica transformava completamente a minha realidade geralmente há poucos segundos de ser pega.

E da perspectiva em ser pega me transportava para a liberdade total. Ou quase.. Pois havia sempre alguém que dizia: ‘Assim não vale!’ Mas eu resistia: ‘Não vale por quê?’ Insistiam: ‘Não vale por que foi emcima da hora, ué!’ E eu respondia que ninguém havia mencionado qualquer coisa sobre o momento de se falar autos. Naturalmente dali em diante, todo mundo se valeu do mesmo artifício. Não demorou muito para que percebessemos que não havia mais sentido no que fazíamos. A atividade perdera a graça e resolvemos reavaliar as regras do jogo.

Não chegamos a lugar algum e houve uma cisão, alguns como eu abandonaram a brincadeira e outros continuaram como antes.

Quando alguns colegas vinham me questionar que não tinha nada a ver eu ficar de fora, que precisava voltar à brincadeira, reagia de maneira a continuar a brincar, ‘a minha moda’: ‘Mas eu estou brincando! Só que agora fico de autos o tempo todo.’ No que imediatamente reagiram: ‘Você não pode ficar de autos o tempo todo!’ E eu, mais uma vez: ‘A regra não diz nada sobre isso.’ Silêncio esquisito.

Embora a minha atitude não fosse lógica eu tinha razão. Se eles não compreendiam que razão sem sentido é aberração, de minha parte nada podia fazer se ingenuamente me divertia. De meu lado eu também não compreendia ao certo o que fazia, mas o que realmente parecia fazer sentido era que resgatara o prazer em brincar.

É exatamente isso que me falta agora, resgatar determinado sentido submerso (arquétipo). Como preciso de mais energia e sei que o sentido submerso está melhor resguardado por lá, não me inquieto por isso. Peço autos da vida que vai nos enquadrando sem dó nem piedade, pela tal ‘realidade’ que nos desvia de nossos próprios sentidos – por certa ingenuidade.  Resta abrir bem os olhos da alma em questão.

Por Aquilo que Emerge das Entranhas do Ser, as mais Íntimas Propriedades

Maio 20, 2009 by Andreaha San

Na última aula de metodologia da pesquisa da profa Euchares, foi nos deixada a tarefa da investigação do Estado da Arte, o que a grosso modo, se é que entendi, seria a investigação sobre o recorte monográfico, o que existe a respeito, onde e como o tema se insere no que já existe por ai.. Se já estava difícil entender o que eu mesma queria dizer lá do fundo d’ alma, agora apareceu um monólito sem igual à frente. O problema só não é maior por que o monólito não sabe que eu gosto de escaladas. Embora certo medo, está claro que o que me parece obstáculo é de fato uma porta.

Uma porta e um sem número de molhos de chaves… Apenas iniciei a pesquisa e já me encontro perdida cheia em questões. Fiasco..

Basicamente estou revendo a óbvia relação com a arteterapia(a qual respeito e admiro), mas faço ressalvas quanto ao foco na cura terapêutica. Não tenho esta pretensão, pelo menos não no presente momento, embora eu trabalhe também pela transmutação de pontos de vistas.

Estou concentrada no despertar de potenciais e no desenvolvimento de processos. Em outras palavras, pra viver experimento e me encontro no transe da busca inerente as verdadeiras peregrinações, ainda que constitua também um processo agonizante mediante as condições de um mundo miseravelmente separatísta. Portanto, me concentro para me desligar ‘um tanto’ da finalidade das coisas, suas funções, metas , objetivos e da razão ‘prioritária’. Quero o transe da consciência plena e naturalmente feliz. Não é viagem de doidão, não há hipótese de fuga. É desposar o Presente para toda a vida! Este sim, fugaz. Então, como defini-lo? Como proceder para estar em total e absoluta sintonia com o Presente? Creio que apenas sendo o que se é por inteiro. E neste caso, a sintonia com o tempo Presente e a definição do mesmo se encontrariam no sujeito da ação..

O procedimento implica numa postura saudável que pode favorecer ao bem-estar e à uma saúde equilibrada, mas reafirmo: o meu compromisso é com o mergulho no processo, na experiência viva pelo diálogo entre consciência e subconsciência. Se a transmutação e a cura são consequências significa que o caminho é sagrado. Uma espécie de transe hiper-consciente por aquilo que emerge das entranhas do Ser, suas mais íntimas propriedades que precisam ser desenvolvidas.

Acho que me aproximo do percurso final da artista Lygia Clark, quando ela se negou a ser chamada de artista e se orientou pela psicanálise. Para quem não a conhece, ela rompeu com o concretismo e foi fundar o neo-concretismo, reinserindo a experiência na concepção de arte e salvando a alma do inferno, na minha humilde opinião. Afinal que opção mais platônica e ‘quadrada’ aquele ideal racionalísta absoluto dos concretos.

Tirando a Lygia em quem preciso mergulhar, talvez o Helio Oiticica e o próprio Jung que tem em suas memórias passagens sobre a questão do desenho e as questões religiosas que são similares as que tive e já está mais do que na hora de dar sentido. Enfim há também que se considerar um bocado de gente nova surgindo por ai que me interessa enormemente, tanto quanto aqueles que já se foram, muitos dos quais não faço nem ideia.

Me falta a noção do conteúdo e a superpopulação mundial é também responsável por esta minha dificuldade. Não se trata de desculpa. Imaginem apenas o que existe de gente interessante na Ásia… É de perder a noção dos sentidos. Então especulo pelas proximidades mesmo.. Gostaria por exemplo de pensar o ‘fazer artístico’ fora dos centros urbanos, ou simplesmente como venho fazendo ao descondicionar suas instituições através de experiências vivas, – e sem dúvida através deste meu viéis arquetípico da criança interior associado ao mergulho meditativo pela compreensão da alquimia possível através do fazer artistico.

Uma impressão de gravidez e outra de quem não vai conseguir parir mas ensaia compreender o que lhe é realmente necessário.

Fiasco?

Via Láctea 1

Abril 26, 2009 by Andreaha San

 

O filme, Via Láctea, foi escrito por Buñuel e Jean-Claude Carrière, tem 100 mins de duração e revela um misto de gêneros: drama-histórico, comédia. A dupla produziu uma verdadeira obra de mestres.

 

Se por um lado o filme me atraiu por transmitir a lógica sócio-política e religiosa da idade média, com base na Espanha e França (ainda que não se trate da compreensão do espírito da época, por agora me satisfaz tal lógica), por outro me seduziu por completo pela hilária relação entre os dois vagabundos, que rumam para o Caminho de Santiago, e os homens do Poder: monarcas, padres e defensores da lei.

 

Relação que expôs a histórica heresia da igreja católica e sua decadência em contraste à autenticidade dos vagabundos andarilhos. Ainda que tenham deslizado em isolado delito, o roubo do presunto, este baseou-se em princípio autêntico, a fome. A autenticidade dos vagabundos está presente em toda a trama através da significativa caminhada pela sobrevivência associada a um sugerido desejo de transcendência na busca pelo caminho sagrado. Ao fim, contrapõem-se: a constante movimentação dos vagabundos-andarilhos, ao delírio intelectual e inércia dos senhores do Poder.

 

Desconcertante é a construção arrebatadora que relaciona o surrealismo ao dogmatismo de maneira a desembocar na confusão dos princípios que naturalmente se traduz em loucura (esta, aqui, nada tem de pura, é justo o seu contrário).

 

Aos vagabundos é reservado um destino puro, rumo aos mistérios da vida enquanto movimentam-se e a descobrem em meio a caminhada. Aos senhores dos poderes dogmáticos e unilateralidade intelectual, resta o desencontro com os mais básicos princípios da vida. Natural parece portanto, o encontro com a loucura.

Via Láctea 2

Abril 26, 2009 by Andreaha San
Mané Dengoso e seu Lagarto Escabroso - Pintura / 2003 / Andrea
- Mané Dengoso e seu Lagarto Escabroso – Pintura mista s. tela / 2003 / Andrea


Quando estive em Santiago de Compostela, não havia qualquer intenção em peregrinar. Fizemos o caminho todo de carro.

 

Estivera na Bretanha pra conhecer a família de meu namorado. Em seguida retornamos à Alès para restaurar algumas pinturas que vieram do Brasil para minha individual, Brinquedos, que ocorreria logo após a Bienal de Cerveira em Portugal. A Bienal me convidara à expor o: Mané Dengoso e seu Lagarto Escabroso. Época em que a minha pintura denunciava o formato HQ ou ‘quadrinhos’ que desenvolvo agora de maneira ‘convencional’ – embora nem tanto..

 

Cruzamos de leste à oeste o sul da França, no limiar do norte da Espanha, e pernoitamos numa aconchegante casa de pedras. Uma única noite de estadia e tive um sonho que se realizou com o nascimento de minha sobrinha, Estela. Não sabia ainda, mas minha irmã havia vencido questões pessoais que a afastavam da possibilidade de engravidar da nossa tão evocada caçulinha. Não foi apenas uma visão iluminada, significou uma grande vitória de minha irmã.

 

O título do filme de Buñuel, Via Láctea, é referência a Santiago de Compostela, do latim, Campus Stellae, ou Campo das Estrelas. Remete a luminosidade que, dizem, sinaliza as estrelas que estão sob a tumba do Santo. Assim como a Via Láctea produz um traço estrelar, diz-se que o Caminho de Santiago reproduz este traçado na Terra. Por isso, ele é também conhecido como Via Láctea.

 

Um caminho sagrado simboliza, a grosso modo, o enfrentamento dos desafios pessoais que naturalmente podem conduzir à uma elevação de consciência devido a transmutação de paradigmas.

 

Há pouco tempo percebi a relação intrínseca do nome: Compostela e da Estela. O nome de minha sobrinha (de apenas 3 anos) tão querida, amada e ‘comparsa’ ; ), significa estrela… A isso o senso-comum  chama de coincidência. De minha parte como não participo de qualquer ‘seita cultural’, sou apenas eu e o mistério da vida, prefiro no encaminhar da mesma observar qual o sentido do sinal.

 

Afinal, se o meu corpo produz dores, efeitos que traduzem causas diretas e indiretas, por que o mesmo não ocorreria em relação a Natureza, se somos a micro realidade de sua macro existência?

 

Por que eu tive o privilégio de ver a minha pequena antes de qualquer pessoa, há prováveis 8 meses de seu nascimento? Por quê? Pra quê? Como? Seria adequado compreender ou apenas observar? De novo.. Porquê?

 

Sonhos proféticos eram bem mais comuns em minha infância do que na vida adulta. Há poucos anos analiso o processo e por ele mais facilmente me reencontro através da meditação. É lá no vácuo de minha existência física, que reequilibro todos os níveis corporais, apta a vislumbrar uma realidade que não depende apenas da visão e demais sentidos – é certamente de outra ordem. Mas isso é outra história..