Revoluções Interiores & Mixtério

novembro 24, 2009 por Andreaha San

Infelizmente ou não (como diria Caetano..), nasci Não Linear. Por isso ando penando por não seguir esta não-lineariedade depois de anos abusando da mesma.. Algumas vezes na vida é necessário dar um passo pra trás para poder seguir adiante. Mas é duro! Quando se tem a pintura madura e o fruto caindo por terra.. É duro não poder escrever quando se precisa materializar a ideia-pensamento, é muito duro não brincar com meus hqs experimentais e finalizar a trilogia em webvideo: Internet tem Alma. Faltou editar o último: Qual o Espírito da Internet?. A produção e captura das imagens já data do início do ano. Foi o único que não se definiu em edição logo após sua captura. Ele é pleno em possibilidades, um resumo catatônico dos 2 primeiros vídeos da série. Me inspirou também para um outro projeto que pretendo iniciar em janeiro de 2010 na residência artística que farei em Guadaloupe, Caribe.

Por que o lamento se não gosto de me lamentar? Por que alguma coisa está fora de ordem. E, se mais uma vez me vejo rodeando Caetano é pra que coloque enfim a poesia pra fora. Sai de mim angustia leonina! Já não me cabe mais essa aflição entre guerra e paz. Um sentimento que persiste sem nostalgia alguma que lhe permita a latência sem sentido. Seria um tropeço numa fenda do espaço? Gosto da ideia de que este sentimento mais fora de sintonia com meus pensamentos bem poderia ser, uma aberração tempo-espacial. Mas só louca - por completo (é bom frisar por que sempre tem um ‘amigo’ que vai se ater: ‘Ué? Mas você é louca mesmo, por que negar?!’) – não perceberia o quão revolucionariamente se move em avalanches o poder das águas(=emoções). E, por causa delas, estou aqui agora parando tudo, na tentativa de capturar a sintonia com o pensamento. Viva as tisunamis interiores!

Adeus homem de outrora! Consigo vai uma parte de mim  sem olhar pra trás.

E o lamento mais fora de ordem se deve ao Ser por Inteiro que, mais do que nunca, deseja dar voltas espirais. Que martírio percorrer uma linha reta, trilho, baia, fila, demarcação espacial que me contenha e formate. Identidade tem princípio? Parece que sim, resta saber se conveniente ou não. Eu me pergunto sobre a sua contundência em relação a nossa Natureza e propriedades. A função social é historicamente óbvia.  É necessário se enquadrar caso se almeje o sentido através da forma.

Conheci apenas um homem que prescindia do desejo de forma. Era doce, lindo de corpo e alma, parecia até um santo, mas ainda assim me causava certa estranheza. Através dele percebi como é contundente para o mundo em que vivemos, o sentido através da forma. E desisti de certa resistência infantil a matéria realizando o quanto a possibilidade de materialização me satisfazia. Alguma coisa lá dentro dizia baixinho: ‘Bonitinho mas ordinário!’ Eu relutava: ‘Mas é quase um santo, lindo de cima abaixo, por dentro e por fora!’ E a mesma vozinha já querendo ir, se foi enquanto completava: ‘Quase não é coisa alguma, falta-lhe humanidade…’

Uma identidade volátil como a que possuo, à la ‘mercúrius solubilis’, não se dá as interpretações. Há sempre um mistério no ar. Um mistério feito de muitas propriedades, tendências, invisibilidades e oposições latentes – um MiXtério. Mercúrio (c12) em oposição a Plutão(c6) / Sei o quanto uma identidade claramente definida é porto seguro na compreensão social, pois para esta – ainda – é de difícil compreensão tudo aquilo que se move, se transforma e não se apega ou pelo menos por isso se move. É o oposto do pensar em massa, baseado no senso comum das tradições e rotinas do cotidiano. Sol na cúspide do ascendente em oposição a Urano conjunto a Júpiter(c7).

Já derivei horrores por não me enxergar misturada no mundão social. Enfim, quando me vi lá, estava diante de coisa alguma. Cedo percebi a que grau de miserável solidão se entrega o homem inconsciente de si-próprio. Vivi esta inconsciência na relação de infância e adolescência com meus pais e depois, talvez por contágio, enxergava tudo como podia enxergar, embora sempre com incômodo, estranheza, e uma vontade de ver a própria espécie pelas costas: ‘Entidade daninha!’ Ebulições juvenis à parte, e apesar dos ‘upgrades’ de consciência, a inconsciência na sociedade ainda é enorme e naturalmente caracteriza a todos nós, independente das inúmeras diferenças conscienciais. Neste modelo de sociedade a maioria prevalece. Dizem que em terra de cego quem tem um olho é rei, concordo se a filosofia desta terra for regida, como é na nossa, pela visibilidade e sacralização da imagem. Neste caso, siiiim! O zoiúdo é rei! Mas se a filosofia desta terra for regida por outro sentido? Ou mesmo pelo acesso ao subconsciente? O zoiúdo precisaria ser expert em ’subjetividade’, do contrário não teria chance.

A sociedade ainda é uma miragem, não condiz com as imensas propriedades de nossa humanidade.

O que há de transformador em ’Ser’ é lidar com o outro que há em si-mesmo.

Hoje eu sei quem sou. Reconheço tanto o deus quanto o demônio que há em mim. E isso não foi, nãe é fácil, mas é preciso desenvolver. Amo a volatibilidade de antigas confusões por que o suporte social não parecia ser o ideal.. Realmente não é. Em minha – hoje reconhecida, por que compreendida - volatibilidade, vislumbro formas que assim que puder por-lhes as mãos, instantâneamente tornar-se-ão matéria da mais pura realidade, concebida no âmago de minha autêntica vulnerabilidade. Ah!!!! Quando eu puder por as mãos!

Há quem trabalhe contra a cultura e pense sinceramente que tal atitude seja revolucionária ou algo parecido. Não passa do outro lado da mesma moeda : uma sociedade baseada em poder, medo e movimentos insanos em massa. Eu prefiro o movimento compensatório das ramificações, reconhecendo acertos e erros. Compensação se aprende e se desenvolve na justa medida de um olhar consciente sobre os paradoxos das experiências humanas. Tensão é um caminho fértil disfarçado por dor e sacrifício. Mais adiante, você percebe nesta relação o delírio, e mais adiante ainda, constrói um caminho próprio sem ter que destruir nada que já não esteja em ruínas.

Ufa! Escrever é um bálsamo. Eu recomendo!

No mais valeu Cosmo! Tirando as pendências que nós acertamos com o tempo, transformaste um ano tenebroso em compreensão. Onde ainda há neblina suficiente para se suspeitar dos benefícios já recolhidos. Mas como ex-míope de nascença aprendi a enxergar no quase escuro. Vejo por entre a neblina, brilho aqui e ali, reflexo de alguma coisa que ainda não sei o que é. Ele está em toda parte. Nem confusa, nem excessivamente curiosa, vou deixar a neblina se esvair. Não tem pressa hoje que me abale, corrompa ou exalte. Se antes me irritava ser duplamente ariana com marte residente em sagitário, hoje muito agradeço essa exuberância de entusiamo pelo devido conhecimento. E se é devido, por que sair do prumo?

As citações astrológicas se devem, ao incitar promovido pela abertura do curso de astrologia: Diferenças que unem – a arte de se relacionar, da Claudia Lisboa . Conheço astrologia desde garota e foi muiiito bom reaver a disciplina através de uma natureza tão sensivelmente banhada por sua arte (= techné=hefestos=prática=magia).

Kandinsky, Meditação, Formação e Métier

setembro 23, 2009 por Andreaha San
O Pássaro Verde e a Flor Negra

O Pássaro Verde e a Flor Negra

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A pintura acima foi a última que fiz sob  o tema, pássaro, motivo também escolhido por mim (e pela colega Margarida) para o último ateliê de barro. Dediquei várias meditações e algumas pinturas aos pássaros. Meditação cujo o foco não é fixo é pouco comum.  Meditar com pássaros é contemplar a céu aberto, a espreita que venham em bandos estrategicamente organizados em triângulos ou a espreita do bote n’ água, algo impossível de acompanhar com precisão, mas com a prática a atenção se aprimora.. Observar os animais me permite extremos de emoções, do assombro ao encantamento.

“Toute oeuvre d’ art est l’ enfant de son temps et, bien souvent, la mère de nos sentiments.”

Toda obra de arte é criança de seu tempo e frequentemente a mãe de nossos sentimentos.

Assim Kandinsky introduz seu livro: Do Espiritual na Arte e na Pintura em Particular.

No 2o. ateliê de barro da última aula, o prof. Álvaro mencionou Kandinsky através do livro acima citado, e o seu entusiasmo e apropriação perfeita à ocasião, repercutiu em mim. Procurei pelo meu Espiritual na Arte em francês da editora Folio e o reencontrei – quem quiser pra xerocar está a disposição. Tenho também uma velha tradução em português dos tempos de faculdade, mas desse não sei.. É possível que alguns de meus colegas não conheçam Kandinsky. Por isso achei interessante citar alguma coisa de seus escritos por aqui. O cara é imperdível! Da mais pura e estruturadora poesia: Naturalmente incita à inspiração. Quando fui apresentada ao mestre dos mestres no período final da universidade, pelo também inspirador professor Paulo, compreendi não apenas o que fazia, como iniciei análise sobre o entorno, o chamado, métier

Interessante como reviver é viver! Não me canso desta forma de encantamento, onde olhar-de-novo é sempre oportunidade de renovação.

Kandinsky é transcendental, reúne opostos da estruturação formal, especialmente na pintura integra geometria à plasticidade orgânica das cores.. Como mencionei, foi ele quem me ajudou a enxergar da pintura ao métier. A interpretação tendenciosa d’ alguns professores da universidade muitas vezes mais confundia do que nos ajudava a crescer. E quando se é muito jovem - entrei na ufrj aos 17 – pode-se comprometer seriamente por preconceitos alheios. Infelizmente ainda temos uma educação baseada em dogmas, e por conseguinte, pouco intuitiva.  Mas há mudanças no ar e a tal sociedade, apesar dos pesares, parece ganhar alguma consciência, embora ao meu ver, a passos de cágado.

Fiz 6 anos e meio de UFRJ. Entrei via cenografia, 1 ano e meio depois transferiria meu curso à Pintura. Somente esta última pede por currículo um mínimo de 5 anos. Uma espécie de curso clausura, cujo período final de mergulho no ateliê, nada fica a dever a qualquer residência médica, onde o aprendiz deve concentrar-se de corpo e alma na prática de maneira a não iludir-se com a mesma, mas se descobrir inteiramente nela, por ela, ela.. Por aqui, ocidente, ninguém prepara o Homem para tal entrega , funciona justamente ao contrário, na nossa filosofia impera a dispersão de consciências e consequentemente, atos. Descobri na prática do ateliê o que poderia ter descoberto bem mais cedo caso tivesse nascido na terra dos olhos puxados. Sem dúvida, por aqui, grande parte de nossos mestres, tendem mais a nos confundir do que a esclarecer, são também eles frutos dos maus hábitos que perpetuamos na forma de preconceitos e pretensões, uma sociedade que não cabe mais na ilusão de seu imenso e doente ego. Hoje percebo o quão corriqueira é a ignorância que permeia as práticas. São as pragas dos métiers. Artifícios de uma razão sem paradeiro, com as quais se defende espaços e delimita-se poderes. Enfim, pragas vazias, pragas de espírito! Fizemos da ignorância filosofia de vida.

Embora eu fosse de todo ingênua e um bocado ignorante (associação infernal! É, eu sei..) , quem um dia já se viu selvagem me compreenderá - assumi a escola de belas artes da ufrj não por ignorância, mas por total ausência de escolha. Na época não havia por aqui outra alternativa pelo ensino das artes plásticas, e ainda que a EAV do parque lage estivesse na ocasião aberta, o que eu queria era fazer universidade, e de preferência a que fiz apesar do descompasso na adoção de uma filosofia de arte herdada do padrão europeu com uma defasagem histórica de pelo menos 400 anos. Belas artes significa tradição movida à cânones e representações, ao meu espírito soava como, ‘métiers em falso’. Algo que não satisfazia a minha natureza. Sem alternativa me submeti. A parte boa, a biblioteca da universidade é um convite ao êxtase, as oficinas também são excelentes, destaco couro e madeira, embora por este lado tudo funcionava com louvor.

Independente das idas e vindas, a condição formal de minha pintura seria para sempre marcada pela busca do espaço comum que reunisse: figuração à abstração. O que bem sabemos foi historicamente, mercadologicamente, enfim, socialmente promovida sob a filosofia do separativísmo. Désolé - como diria a profa. Francimar – mas não posso prescindir da arte como possibilidade de encontro.

O prof. Paulo da pintura VI me apresentou não apenas Kandinsky em espanhol mas também o livro : A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen do alemão, Eugen Herrigel. Anos depois pude reviver espontâneamente seus ensinamentos em mergulho meditativo. Trata-se do relato do arqueiro-aprendiz, o próprio autor Herrigel. Ao posicionar a flecha no arco produzindo tensão entre as partes – tensão máxima – inicia-se na arte da técnica(pós exercícios de respiração) que por sua vez não pode ser ensinada, pois precisa ser vivída, uma vez que somente poderá ser compreendida em plenitude através da experiência e incansável prática necessária ao intento: Atingir o alvo com a flecha, destituindo a intenção do mesmo (ou seja, um nó lindo na mente ocidental, habituada pelo racional) – esquecendo-se de si - abrindo espaço à presença de espírito. De certa forma, ‘pensando sem raciocinar’, pensando por inteiro.

Eis o sentido da meditação: Quando a flecha, o arco, a tensão, o gesto na forma que imprime o Ser desperto, o alvo, enfim, todos os elementos desta arte tornam-se um só. Não havendo mais elementos dispersos, mas consciência que centrada em si, reune e integra.

De volta à  Kandinsky… :

“A forma, em sentido estrito, é a delimitação de uma superfície em relação a outra. Todo exterior compreende necessariamente um elemento interior (mais ou menos aparente), toda forma tem um conteúdo interior. A forma é portanto a exteriorização de um conteúdo interior.”

“Estes dois aspectos da forma são ao mesmo tempo seus dois objetivos. Por isso a delimitação exterior é totalmente eficaz quando serve para manifestar da maneira mais expressiva o conteúdo interior da forma.”

“O artista é a mão que, pela prática conveniente do toque, coloca a alma humana em vibração. É portanto claro que a harmonia das formas deve repousar unicamente sobre o princípio da entrada em contato eficaz com a alma humana. Esse princípio foi aqui definido como o princípio da necessidade interior.”

 

Do avesso, por inteiro

agosto 22, 2009 por Andreaha San

É preciso virar do avesso pra se conhecer por inteiro.

Que ano difícil! Queria gritar um palavrão.

Mas agora que compreendo um pouquinho das coisas, depois de economizar energia, estou reconduzindo-a, vou colocar a prática nos eixos.

Me aguarde mundo cavernoso, você vai ficar uma gracinha quando lhe der meu jeito.

Queria gritar um bando de palavrões, mas engoli todos. Que ano difícil, quanta inspiração pra tão pouco espaço.

Já me vejo pelas costas e reconheço minha nuca sem jamais tê-la conhecido. Não posso dizer que seja um prazer virar do avesso, mas sem dúvida é muito bom se conhecer por inteiro.

As vezes, como agora, me sinto envergonhada. Tenho vergonha da minha insistente ignorância, por mais que se cresça conhecimento algum parece suficiente. Ou eu sou ainda muito primitiva? Não quero ser ‘muito’ coisa alguma.

Sinto vergonha quando não percebo a oportunidade que sempre existe por trás das dificuldades. É como se fosse presenteada pelo destino e jogasse o mesmo pela janela, ordenando que procure outro otário. Daí a consciência..,uma voz que parece vir de dentro, repete: Não tenho sangue de barata.. não tenho sangue de barata.. não tenho sangue de barata.. Então eu desconfio:  Mais parece mantra dos infernos! Que consciência é essa?

Santa ignorância, me ajuda a fazer sentido e não mais me perder num mundo dividido.

A Besta e o Coelho

agosto 9, 2009 por Andreaha San

De carona na inspiração da professora, Marfiza, viajamos através da música: ‘Eu nasci há 10 mil anos atrás’, escrita pelo Raul Seixas e Paulo Coelho.

Lembrei de quando era o preconceito em pessoa (vai tempo, mais de década) e dizia que não gostava do Paulo Coelho embora mal – muito mal - o havia lido. E o mesmo ocorre com inúmeras pessoas. Comecei mas parei por que não me sustentava sua literatura, ao meu ver, naquela época, destituída de poesia que me fizesse vislumbrar além espaços próprios.. Lia sim: os Dostoiévski, Dino Buzzati, J. Joyce, Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Shopenhauer que embora não seja ficção me faz viajar à paradas intrigantes desde os 16 anos. A lista de filmes era então mais metida a intelectual que isso aí. Em relação ao cinema sou de fato obsessiva e muitíssimo mais ampla do que restrita.

Apenas reli o Paulo Coelho depois das metamorfoses ocorridas em provocação ao processo de individuação precipitado de fato com o projeto de pintura contemporânea, Brinquedos e sua série de expôs que se seguiram na Europa. Percebi algo de maravilhoso, que transcende ao apego intelectualóide das paixões de estilos. Percebi que a simplicidade verdadeira tem fundamento no maior dos sentidos: o sentido-próprio. Quem é singular por natureza não vive de reagir aos outros, simplesmente vive em plenitude sem aderir a filosofia de mundo oposicionísta. Pois é assim que se favorece o ‘estado das coisas’. Enfim, não se move por preconceitos. Havia e há fundamento nas ‘dicas’ que o chamado mago nos transmite. E ele o fez de maneira magistral por que simples, podendo atingir leigos e eruditos. Eis a base de seu sucesso na minha humilde visão, acrescentem por favor outras pois sou desprovida de inteireza.. Os eruditos que digeriram o Paulo, o fizeram apenas após queimar os preconceitos na boca do estômago-chacra do plexo solar. Aonde habita a consciência, mas também o medo..

Experts de nós mesmos, adoramos nos diferenciar pela comparação, o que em geral compreende a subjulgação do outro. Compreende uma noção de Poder arcaica e ao meu ver, graças aos deuses: terminal! Ainda hoje acredita-se na superioridade de uma cultura erudita em detrimento do pop, ouve-se Mozart, lê-se Shopenhauer e assiste-se Herzog para se diferenciar da massa que simplesmente não foi educada para tanto. Não se compreende que o pré-conceito não está na erudição, mas no homem. O que importa é a máscara de superior. Pensar com propriedade não tem nada a ver com intelectualidade. Um pensamento realmente esclarecedor não exclui nada, nem intelecto, nem espírito, nem carne, reconhece que um homem em pedaços não possui a clareza de sua totalidade. Não somos diferentes pela cultura em que nos apoiamos, simplesmente. Não à toa, ela também contribuiu pra bosta de História da Humanidade que roda e roda a roda da fortuna no mesmo eixo das misérias há milênios constituídas. Cultura é um portal soberbo em termos de significação do Presente. Mas cabe ao homem amadurecer em-si, para utilizá-la com propriedade e sabedoria. Somos ou nos tornamos diferentes pela capacidade inequivocamente humana em ampliar consciências, refazer conceitos, crescer, expandir, evoluir! O resto é resto, pó, cinzas, esteco, carne podre.

Perdi uma amiga jornalista por causa de uma situação envolvendo o Coelho, vou aqui descrever pela primeira vez o ocorrido. Estávamos as duas passando por momentos difíceis, de luta, sacrifícios sem fim. Eu meditando dia e noite, em busca do pulo espiritual que me sustentasse a convicção de que havia luz ao final do túnel. Ela as voltas com livros de ficção chateada acusando editoras de não a desejarem por que tudo era ‘panelinha’. Ela escreve bem. E de panelas todo mundo já teve algum tipo de experiência, mas eu estava num tal momento que lhe recomendava insistir e não se ater tanto a ideia de panela, por que assim acreditava e acredito: não projetaria coisa alguma. Ela muito decepcionada pouco me ouvia.

Saiu a autobiografia do Paulo Coelho. Ela me falava que reconsiderara sua visão a respeito dele em alguns pontos, mas que de fato não o engolia e assim começara a me relatar ocasião em que fora até sua casa com uma colega também jornalista para produzirem juntas uma entrevista com o Paulo. Frisou que sua colega assim como ela não o suportava. Questionei o por quê e a resposta nunca vinha objetivamente, eram evasivas, geralmente relacionadas a postura de vida, sem uma única vez fazer menção aos escritos em si.

E assim relatou que ao adentrar na casa do escritor,  deu com uma estante com todos os livros do mago em várias linguas. Os livros estavam apoiados em santos. Esta era a sua ’gota d’água’, não achava justo que os santos estivessem servindo de suporte aos livros. Foi categórica ao afirmar que uma pessoa que coloca santo para sustentar livros não poderia ser uma pessoa digna etc e tal.. Pra mim estava claro justamente ao contrário. A crença dele era tamanha que evocara a energia dos santos para com eles promoverem juntos seus sonhos. E o resultado é o que vemos e acredito fundamentar parte de seu sucesso pelo conhecimento na manipulação das energias.

A resultante da empreitada jornalística foi o abandono sumário do serviço sem a devida constatação, diálogo, abertura de espaços, confrontamento saudável entre as partes que pudesse promover uma maior compreensão dos fatos.. A amiga de quem falo eu já vi na sua base mais pura e verdadeira, ela é linda, generosa, engraçada e direita. Hoje percebo com extrema acuidade como estava doente. Na época eu também não poderia dar-lhe o devido olhar de compreensão, também eu vivia das entorces psicológicas, expurgando aos montes, sem foco que nos sustentasse. Assim nos afastamos.

Julgamentos e preconceitos são atitudes de uma oposicionísmo tacanho. Sou phd nisso, fui educada para tanto. Mas maior é o nosso chamado interior, quem quiser ouvir, precisa ‘baixar a onda dos sentidos’. Se for difícil, façam como eu! Gastem bastante e depois, abram bem os ouvidos e deixem o coração falar.. Preconceito e julgamento cegam a alma. Precisamos aprender a lidar com nossas próprias energias em relação direta com o entorno, um entendimento entre o homem e a natureza. Não há por que desvirtuar energia com o julgamento alheio.  A não ser que seja um verdadeiro juíz! De resto, é lidar com a própria energia, a sua máxima energia em comunhão com o entorno.

Observo que o Paulo Coelho cresce por que sabe se desligar depois de ter tido com o mais profundo de sua sombra. Por isso e também por que dizem, não escreve com o esmero de um escritor de estilo superior, recebe inúmeros ataques. Infelizmente há ainda muita mais inveja que desvirtua as pessoas de si-próprias, do que orientação de energias ao próprio intento, desejos e sonhos.

Por fim, disseram em nosso seminário que o Paulo Coelho e o Raul Seixas se apropriaram do conhecimento de madame Blavatsky, dentre outros. Atento, como de costume, o prof Alvaro lembrou que o mesmo aconteceu com outros. Pois o Freud não foi beber em outros? Jung, Picasso, George Lucas, etc.. Qual o problema? O mundo é uma colcha de retalhos. Estamos aqui para atualizar visões de mundo, a criação é uma amarga ilusão. Somos de fato seres imaginativos com raros insights de criação. Olha que quem vos fala já teve seu trabalho ‘chupado’ algumas vezes, de maneira leviana – premeditadamente me ‘furtarem a vez’.. Com este procedimento não há como concordar, mas não parei para espiar a loucura alheia por muito tempo, caso contrário ficaria louca também. Segui em frente.

Espero imaginar com propriedade, orientação, certo rigor e muito delírio arrumadinho, sistematizar também (sem jamais ser ortodoxa!). E embora adore receber inspirações criativas – é boa parcela do que me move – não vou ter pudores quando conceitos alheios me seduzirem (já não tenho..), deles me apropriarei e daí nascerão outras perspectivas, tantas quanto tiver energia para atualizar. E não é que desde pequena adoro colagem! ; )

Depois fiquei pensando, talvez o Paulo Coelho possa nos ensinar mais do que seus livros propõe através da sua história de vida. Êeee figura pra resistir a ira dos outros! Isso sim é sabedoria. Produz uma resistência que em planos espirituais vale o nosso ouro terreno. E assim como é acima, é aqui embaixo.. Acorda ser humano!

O Circuito das Estrelas Interiores

agosto 9, 2009 por Andreaha San
entre França e Espanha

entre França e Espanha

compostela4_abadia

Abadia do sul da França - portais

Eis o reencontro de nossa especialização, o primeiro do novo período. Momentos de confraternização e novas inspirações (e eu numa saia justa com minha criança interior! Doidinha pra meter a mão naquele barro todo que o prof. Álvaro cuidadosamente alojou na sala ao lado). Se a teoria me inspira, ela também me solidifica, e a arte, redentora e cúmplice que somos, não apenas significa, mas fundamentalmente dissolve.. é bom fazer parte!

Que satisfação ver a nossa querida Euchares tão bem disposta no domínio de sua bela vocação, nos ajudando a conceber através da estruturação que pede nossas monografias. Fiquei impressionada com uma recuperação tão ágil para uma cirurgia tão delicada. Depois de um meio de ano particularmente cavernoso, do tipo buraco negro, me sinto abençoada por todos os lados, e o entorno, especialmente deste curso, é de uma luz a parte.

O prof Alvaro nos contou sua experiência ao descobrir os caminhos sagrados que existem na França, projetados como circuitos entre as igrejas. Caminho este que adentrei em 2005 quando cruzei a França da Bretanha à Nîmes, de Nîmes à Saint Jean Pied du Port, e depois dalí cruzei reto, de carro até o norte de Portugal, rumo a bienal de cerveira onde expus. Não peregrinei por terra.., mal sabia aonde estava, mas sonhei em saint pied com minha sobrinha Estela, antes de sabermos de sua concepção. Um sonho pra nossa família sagrado pelo desejo de minha irmã em vir a ser mãe num momento nada propício. 

De saint pied du port, lugar de hospedagem de peregrinos, trago o resgate e a atualização da capacidade que meus sonhos de infância tinham. Através deles vislumbrava o futuro. Através deles hoje, mas também ao largo de mais de uma década de meditações, tenho aprendido a melhor sintonizar meu self.

O bebê que vi no sonho era muito parecido com minha irmã pequena, fato que por si só me fez acordar sorridente, ciente de que minha irmã engravidara. Estela e Martha, minha irmã, têm um biotípo bem próximo. Detalhes do momento no link abaixo : http://globalaio.wordpress.com/2009/04/26/via-lactea-2/

Estela faz graça desde que veio ao mundo

Estela faz graça desde que veio ao mundo

minha fofinha!

minha fofinha!

Estela quer dizer estrela, e santiago de compostella é também conhecida como Via Láctea, justamente por causa do circuito das peregrinações sagradas, entre frança, portugal e espanha. Dizem que tem a ver com o desenho das constelações.

Por outro lado, o que é de fato um circuito de peregrinação? Ao meu ver, um lugar marcado por uma super concentração de suor, lágrimas e muito sacrifício, que prédispõe aqueles que se sintonizarem ‘ao padrão’, a atualizarem suas próprias experiências. O embate interior pela compreensão de nossas sombras e máscaras, anima e animus são ‘pontos chave’ de nosso ‘circuito sagrado’ particular. Portanto, cada um tem em si o próprio mapa. Ou melhor, o circuito nos habita. É fato arquetípico – do contrário não haveria atualização que fosse possível. E, como diz a tábua esmeraldina ‘o que está emcima é como o que está embaixo’. A partir do encaminhar-se para o acesso, o enfretamento da busca em si, na reunião dos termos: racional-analítico e contemplativo-meditativo, o trajeto rumo ao self se constitui.

A minha monografia fala da natureza e condição do artista na elaboração de ateliês de expressão na vertente em que associo meditação à plástica. Parte de minhas experiência de unificação do self em meio as exposições, viagens, residências artística e inúmeros ateliês ministrados em museus, galerias e salas de aula. Tudo isso entre Portugal, França, Espanha e no Brasil em menos escala, ainda… Engraçado como fugi do tema inventando outros. Não queria nada tão autobiográfico assim porque não me sentia segura em falar de um caminho que ainda percorro. Ingênua pretensão do saber.

Abri espaço neste blog pensando em me organizar para o curso, na medida em que reuniria impressões teóricas ao desejo de passar certa experiência, sem a menor ideia de como iria delimitá-la. Foi salutar aprimorar o saber na crença em algo que não existe, se houver vontade que trabalhe na sua direção construtiva. É óbvio para alguns, mas constitui ainda prática rara num ocidente constituído pela filosofia das sistematizações. Se opõe a nossa cultura, embora princípio valioso para o desenvolvimento da imaginação, como me oriento cada vez mais num crescente avassalador.

A dica é velha (já mencionei por aqui ), mas atualíssima! O filme Via Láctea, sensacional produção do Bunel. Fala do circuito sagrado, do embate entre loucura, religião etc. Tem uma cena sobre o conceito de Trindade discutido em praça pública que além de esclarecedora é hilária, pela recepção popular na figura dos peregrinos-vagabundos.
http://globalaio.wordpress.com/2009/04/26/via-lactea-1/

Oráculo

julho 28, 2009 por Andreaha San

Oráculos não existem para mudar vidas. Existem por que o projetamos. E como tudo o que vem de dentro e não se materializou ainda fora, há que se considerar o momento latência. Das projeções sem trabalho que implique em resistência, sobram apenas miragens.

Previsões apontam concentrações de energias, mas não caminham por nós. Quando o pensamento muda e os atos acompanham, a energia há pouco ‘lida’ desintegra-se e novo acúmulo se inicia pela nova substância imaginada.

Vai e vem entre pensamentos e atos causam descompasso entre mente e coração, daí a vida deriva.. A responsabilidade não é do oráculo, simples projeção, mas do corpo inteiro que berra acusando desequilíbrio.

Não há ponto de fuga em ilusões de perspectivas, a responsabilidade é sempre nossa.

Especialidades Explícitas

junho 30, 2009 por Andreaha San

Enquanto aguardo a prova do livro de fotos que produzi com a turma da especialização, andei pensando como este trabalho serviu pra que pudesse reconhecer todos os colegas por seus nomes e trabalhos. Ocorreu enquanto montava a capa e me preocupava em representar cada um através de um fragmento da imagem de seu trabalho. E assim se deu o todo: nossa capa contem o fragmento de cada um de nós pela manifestação de nossa totalidade. Eu só acrescentaria que tal manifestação é fruto também do ‘agora’.

É claro que somos todos muito mais do que nossas partes. Mas com um cérebro que nos pré-dispõe à percepção pelas partes, seria difícil neste primeiro momento uma análise profunda ou complexa do todo. 

Por fim, dei conta que em boa parte as especialidades (vocações, qualidades..) dos colegas surgem de maneira explícita pela relação de sua imagem com a frase. Deixo aqui alguns exemplos, os quais não tive escolha, simplesmente se fizeram presentes:

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O Elissandro - escritor, contador de histórias, sensível e romântico como raros humanos conseguem sobreviver - se expressa pelo encanto da escrita de um outro escritor. Eis aí sua refinada busca existencial, através de Pessoa:

frase:
“Com toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra. E afinal, tem alma dentro?” Fernando Pessoa.

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O Celestino é um cara sagaz, busca os próprios mistérios nas considerações astrais que remete ao outro, é o guru astrológico da turma. Foi apreendido pelo próprio destino ao se envolver com o drama do rapaz que vive na rua e tem na carta escrita à mãe, mas não revelada a mesma, a prova de seus sentimentos o que lhe confere certo valor. Celestino ao lhe doar os ouvidos, serviu-lhe de mãe, e o rapaz em retribuição adotou Celestino indo ao seu encontro sempre que o vê. Celestino não previu o próprio destino do qual tentar fugir.

frase:
“Eu te vejo. Você me vê?”

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A Adriana  Patrícia tem um trabalho incrível com pilotos de avião,  nos revelou a implementação de um trabalho psicológico através da comunicação pelo olhar para que os pilotos pudessem se comunicar com a precisão que lhes garantiriam a sobrevivência. Um ritual visceral de segundos envolvidos. Qualquer ruído pode ser fatal, e  no caso, o mesmo ocorria no entrecruzamento de olhares entre homens e mulheres: a questão sexual../ Tensão entre: concentração absoluta e a perspectiva do prazer e relaxamento.

Sua frase, concentrada por estatísticas globais (mundo) e relaxada pela individualidade (uno):
“Dilúvio Contemporâneo: Lixo: BR: 1000.000 ton./dia; Rio: Reveillon: 600 ton.; SP: 12.000ton./dia; Mundo: 500.000.000ton./ano; Foto: minha gota/semana.”
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De todos os acima descritos, a Isabel é a que menos conheço. Mas gostei muito desta sua frase que não à toa fecha nosso livro. A foto do buraco cheio de lixo e felicidade.. e as pessoas com garrafas de cerveja passeando pela Lapa a noite, revelou uma boêmia e das boas. Se não for psicóloga tem o espírito de uma, a julgar pela análise do lixo. Caso contrário só lhe resta ser artista.

frase:
“O dia está cinza, triste e só. O lixo mostra que alguma coisa aconteceu ali. O que era? Não sei. Parece que sobrou um buraco cheio de felicidade.”

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A Ana Letícia tem qualidades especiais e grandiosas, geralmente ela me dá carona. O papo é alto astral, cheio de humor, sabedoria e mistérios. Gostamos de coisas parecidas e estudamos no mesmo colégio, mas eu não lembrava dela.. Como? Me pergunto!? Ah, agora eu lembro, naquela época sofria de uma miopia de 6 graus, era cega e vivia quase como uma autista, interiorizada até o útero. Mas a Analê é isso tudo aí, e mais alguma coisa. Tem no perfil certos excessos de expressividade que a fazem produzir caretas espontâneas(tipo soluços da expressão), não à toa seu viéis de atriz.. e no coração, uma imensidão.

frase:
“Ser consumido, tudo ao mesmo tempo agora…”
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A Flavia só tinha dois caminhos, ser psicóloga ou detetive particular (embora sei que é colega de pintura) pela perspicácia que dói. Possui um espírito minuciosamente desperto à Vida e o prazer com que absorve e transmite o conhecimento. Acredito que sua monografia, ao falar da morte, além de alento aos seus pacientes, e ao seu desejo na compreensão do mistério, é o contraponto inequívoco da paixão pelo conhecimento, a Vida que traz em si.

frase:
“Zoom, ilusão de proximidade e intimidade.”
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Marta é jornalista, conheço um monte deles, trabalhei com um tanto.. À mim parece que ela vai muito além da ideia de sua especialidade enquanto não apenas espia mas aprofunda-se em novos desafios.  É daqueles seres que carregam muito consigo, tem a marca de seu tempo, a consciência em movimento e o espírito de quem usa a comunicação como instrumento de uma sociedade diferenciada, melhor definida em sua diversidade.

frase:
“Imaginários que se formam pelo jogo dos contrários, pela desconstrução de sentidos, pela alegoria da cultura do espetáculo.”

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Quando li a frase da Aracelli, me lembrei dos ditados dos tempos de colégio. A frase possui até licença poética na exclusão das vírgulas, como ela didaticamente me explicou. Enquanto obedientemente a escutava, embora não precisasse da explicação, pensava: como é bonito uma vocação em processo, ainda por cima quando em exercício se dá o direto aos descaminhos. Ah, isso é poesia!  Se a Aracelli não fosse professora de português o mundo estaria perdido e a gente também, profa Aracelli me ajudou um bocado na revisão do livro.

frase:
“Amendoim jujuba confete bala. Apenas 1 real. Consumo pelo querer. Puro e simplesmente. Apenas 1 Real. O desejo pelo doce, o mesmo Desejo que temos hoje pela vida: açucarado, mas amargo.”
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Depois, mais adiante eu completo, depende do tempo.. Tem o: Lincoln, a Sheila, as Sônias, a Paula, a Angela, a Anna Paula, a Elsa, a Roseli(única colega que não tenho a fisionomia na cabeça), a Michele e a Margarida.

Ateliê de imagem – Mais uma vez, Manequins

maio 26, 2009 por Andreaha San
manequins na vitrine manequins na vitrine

Pensei em como relatar a nossa incursão pelas ruas do Centro do Rio, quando passamos pela feira de antiguidades perto do cais, Arco dos Teles, ccbb, casa França Brasil e por fim pela exposição no Largo das Artes em homenagem à Maria do Carmo Secco, mãe da Aninha minha amiga de outros tempos.. Abandonei a cronologia e exponho inicialmente aquilo que parece ter se transformado no motivo deste meu ateliê: Os Manequins. Imagens por mim inconcebíveis. Tento refletir sobre a insistência com que surgem do nada e naturalmente se postam à frente de minhas buscas focadas em outros assuntos me reconduzindo sem razão de ser, talvez por instinto assumo a captura de suas imagens como se fossem desde sempre minhas.

O que ocorre, remete ainda ao comentário do artista Amador Perez : “…a imagem é que nos escolhe.. “ Quando investimos no processo esta espécie de inversão de papéis torna-se evidente, corriqueira e deliciosamente fluente por que instaura uma aventura misteriosa a qual investimos nossa própria constituição.

Segundo excitadas atendentes, estes manequins aguardam pelo estilísta Yves Saint Laurent, separados de nós, o público, por uma porta de vidro. Como se eu já não os atraísse por intermédio de vitrines, seus reflexos e imagens derivadas em frações as quais reafirmo mais uma vez: por mim inconcebíveis.

Resolvi num impulso fazer as fotos em p e b. Depois percebi que desejava tirar partido de um claro escuro sutil sem grandes contrastes, reduzindo a visibilidade. Desejava com isso tornar visível certa ambiguidade, buscar o meio caminho no tom com o qual se revela a imagem. Meio razão, meio intuição - entre mundos.

cadê o Yves

cadê o Yves

a sombra do Yves

a sombra do Yves

Gêmeos Remotos

maio 26, 2009 por Andreaha San
 no hall de entrada a 1a peça
no hall de entrada a 1a peça
O início da exposição dos Gêmeos com o carro homem. O que mais me chamou a atenção, comoveu, atiçou os sentidos foi um garotinho que rodiou a peça e a investigou como eu fazia quando criança, abstraindo completamente do controle adulto. Jung no seu livro de memórias também fala de uma incursão num museu (algo do gênero) em que ficara encantado com o conteúdo apreendendo todo aquele mistério da história humana como quem se reconhece, enquanto sua tia o arrastava para a saída.

Foi esquisito não poder registrar as pinturas dos Gêmeos, elas me causaram sentimentos adversos, teria sido bom fotografar. A palete é similar a que eu utilizei na minha individual: Brinquedos, as cores próximas aquelas do conjunto de pilots proposto às crianças através da indústria-escola, o toque pop do contemporâneo. Mas essa ideia do sujeito que emerge junto à filosofia do urbano e se torna pop é um engraçado pois recorrente paradoxo – de ‘marginais à pop-star’. Como filosofia de vida, a reprodução da reprodução da reprodução… Filofofia de vida é sacanagem! A instituição da arte me dá arrepios, embora seja nas políticas culturais que está a nossa possibilidade de caminhar, é na instituição de um modo operante que se perde a noção de sentido.  A graça da caminhada é  desvendar a própria trilha. Talvez o que tenha mais mexido comigo foi rever esta palete num momento em que a transformo radicalmente, e ainda assim por que não a percebia por aí e agora vejam só meu! Comparsas em sampa! Gostei imensamente das mandalas de fios-barbantes nas paredes.

imaginem o que ele está imaginando

imaginem o que ele está imaginando

o que seria das crianças (nós) sem os adultos?

o que seria das crianças (nós) sem os adultos?

mundo interior

mundo interior

vista superior

vista superior

cabeção

cabeção

  

Arcos dos Teles

maio 26, 2009 por Andreaha San

No caminho o arcos do teles é um colírio. E  sinos ‘de enfeite’ pendurados pelas ruelas me chamaram a atenção. Eu nunca havia notado que era mais de um, pelo menos não com uma máquina na mão em busca de motivos.

Evocavam em mim a memória do som, a função do sino, a situação de enfeite.. a destituição da função, a imagem perdida no ar e o som ausente

surge uma igreja e um sino