Na Companhia de Homens

‘Na Companhia de Homens’ é um filme que me impressionou. A grosso modo ele fala de manipulação, mas vai muito mais longe. Trata-se de um filme aparentemente despretensioso, mas que surpreende pela enorme categoria com a qual tira partido de uma construção narrativa impecavelmente bem elaborada.

Planos e roteiro muito bem arquitetados, diálogos inteligentes, cenas produzidas sob medida, sem o menor desperdício.

A opção pelo preto e branco que impregna as cenas de rigor estético – ao invés de limitar, surpreendentemente empresta certa atemporalidade à composição. Show!

A trama é engraçada, dramática e sarcasticamente instigante. Vou desenvolver o raciocínio sobre a narrativa, mas não vou dar ‘o pulo do gato’ da trama por que não quero ser estraga prazer. O filme merece ser degustado sem maiores interferência.

Dois colegas de trabalho, chutados por suas respectivas companheiras, resolvem se vingar das mulheres orientando todo o ódio que nutrem por elas focando em uma mulher frágil e ainda por cima surda. Uma jovem que possui recalques face a própria deficiência, torna-se a vítima perfeita pela qual esperavam.

É verdade que eu cheguei a duvidar quando o bonitão do filme revelou ao amigo e colega de trabalho que sua companheira de mais de 4 anos o havia largado. Cá entre nós, naquele princípio de filme e poucas referências no ar, querendo ou não as aparências tem o seu momento chave resguardado de maiores(ou menores) conotações. E aquele era o tipo de homem que terminaria com as convicções de qualquer solteira convicta. Mas no que o filme vai se desenvolvendo, você vai percebendo um ‘babaca profissional’ em forma de Apolo. Nem tudo é perfeito. A escolha do ator sim, foi – deliciosamente – magistral. Ele encarna um sujeito que aos poucos vai se revelando especulativo e manipulador, embora transmita desde as primeiras cenas ser alguém seguro de si. O que obviamente não significa equilibrado, mas de relance pode ser compreendido como tal.

O outro sujeito, seu amigo de vingança, torna-se chefe de equipe, o que inclui comandar o Apolo-babaca (desculpem, mas a quem interessar nomes de atores, o Google pode dar conta do serviço, o nosso negócio aqui são impressões sensíveis acerca da narrativa e construção audiovisual).

O chefe é um cara sem sal, perguntem a qualquer mulher e não darão mais que isso. Mas também um ator muito bem orientado pelo perfil de seu personagem, desempenhando seu papel com dignidade.

Ao iniciarem, em paralelo, as investidas sobre a jovem deficiente, o Apolo leva larga vantagem, como qualquer pessoa poderia presumir sem qualquer presunção, era possibilidade certa. Mas o chefinho sem sal também sai com a moça. Não tarda para que descubramos que há muito ela não tem relações com homens – como o Apolo havia vislumbrado ser o tipo de mulher ideal para que o plano fosse realmente fatal à vítima escolhida.

Ao perceber que o chefinho sem sal estava se interessando verdadeiramente por ela, a moça que já mantinha relações íntimas com Apolo, revela ao chefinho que há muito não se sentia desejada pelos homens e que portanto ultrapassara os limites da conveniência ao aceitar sair com dois ao mesmo tempo. Ela então resolve dispensá-lo, mas ele não se contém e resolve dar pra trás no jogo arquitetado com o Apolo, revelando à moça toda a armação.

Seguindo a lógica do Apolo, eles deixariam a vítima se apegar para depois abandoná-la sumariamente a própria infelicidade. Assim estariam vingados de suas respectivas ex-mulheres, ou melhor: vacas, como mencionara repetidas vezes.

Além de babaca o Apolo é realmente personagem múltiplo, ele revela toda a sua dualidade ao manipular um de seus subordinados instigando-o a abaixar as calças demonstrando, literalmente ter culhões para integrar a empresa. Embora a atitude revele o lado negro do ‘bonitão profissional’, muito antes de descobrirmos que Apolo manipulara até mesmo seu

velho colega de trabalho, a cena é mais um indício de que Apolo tem profundos complexos. Informação muito bem plantada com o auxílio de cortinas que restringem a visão do ambiente e criam um clima de maior intimidade e intimidação entre o patrão e o subordinado.

Mas o pior ainda estava por vir e desabou sobre o chefe sem sal e a jovem surda, quando este se viu apaixonado pelo alvo da vingança enquanto a percebia literalmente ‘de quatro’ por seu amigo.

Daí em diante desandou tudo num enredo de carências mútuas em manipulações sem quaisquer pudores, orquestradas pela ambição desmedida de Apolo por ascenção no trabalho. Apesar de Apolo ter conquistado o posto de seu colega tornando-se o chefe da vez, seu sorriso e indiferença as carícias da companheira mais remetem à insanidade de sua solidão interior do que ao triunfo profissional.

Por outro lado a cena final é maravilhosa. O ex-chefe sem sal, desesperado pela traição sofrida, vai ao encontro da surda e não consegue se comunicar com ela apesar dos berros em pleno ambiente de trabalho. A surda, sabiamente opta por desviar o olhar da situação – tirando partido de sua deficiência como auto-defesa, e fim de história. Magistral!

O filme é de Neil LaBute e coleciona inúmeros prêmios, como o melhor filme do Sundance Film Festival de 1997.

Uma pérola para quem gosta de tramas bem construídas e desenvolvidas com inteligência e grande poder de persuadir até o mais rigoroso dos expectadores.

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