O Hábito da Língua Malcriada

Certa vez eu procurava um caderno numa papelaria na França com certa dificuldade, enquanto dividia a minha atenção e mais me concentrava na conversava com a vendedora que elogiava o meu francês. Subitamente me veio uma conotação paralela ao que ela me afirmava: Percebi que eu estava, naquele exato momento, falando melhor o francês do que falara o português(minha lingua natal) durante toda a minha vida. Não era apenas uma questão de pronúncia nem de vocabulário, era uma percepção de outra ordem.

Geralmente quando falamos uma língua que não é a nossa língua natal, elaboramos o discurso objetivamente, focando com a ‘atenção presente’, a compreensão do outro. Mas quando nos comunicamos na nossa própria língua não existe o mesmo cuidado. Desta maneira não existe cuidado algum, nem consigo nem com o outro.

Tal situação reintera a necessidade da atenção total no que fazemos. É de suma importância viver o Presente com a integridade que somente o observador consegue. Pré-julgar não é somente um ato pretensioso mediante a Vida que a todo instante muda. É acima de tudo um desperdício da própria Vida.

Esta perspectiva é próxima a conduta que adotamos, sem grandes consciências, quanto a comunicação entre parentes ou pessoas de nossa intimidade e a conduta totalmente diferenciada que manifestamos mediante pessoas com as quais não possuímos intimidade. Geralmente, no primeiro caso, temos a pretensão de que o outro sabe ou deveria saber do que falamos, já em relação aos ‘não íntimos’, naturalmente pensamos que eles não possuem referências quanto ao nosso discurso, e sendo assim, tendemos a melhor nos comunicar com as pessoas com as quais não possuimos intimidade, disponibilizando para estas nossa atenção integral.

Na pureza e integridade das relações humanas não existe pretensão alguma ao julgamento, pré-julgamento e criticísmo. Enquanto o conhecimento que os sustenta nos separa e condiciona, a sabedoria inerente a ‘atenção no Presente’, tem o poder de melhor esclarecer a Vida em toda a sua diversidade, promovendo milagres ao reunir, por respeito e amor a abundância de nossa Natureza: católicos e espiritualistas, flamenguistas e vascaínos, políticos e naturalistas, gregos e troianos.

Se levássemos em consideração que a base da comunicação é passar uma mensagem adiante, e que para isso a atenção quanto ao uso da linguagem correta, adequada à compreensão do interlocutor, é fundamental – e que ainda, ninguém tem obrigação e muitas vezes não possui a menor disposição de nos ouvir – provavelmente muitos dos curtos-circuitos de nossa contemporânea comunicação, seriam evitados.

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