Autos pra Respirar

As vezes tudo o que a gente quer é pedir ‘autos’ da vida.

Não, não se trata de estigma suicída. A verdade é que a vida contemporânea para alguém como eu que já viveu algumas décadas, nem tantas, mas o suficiente para poder comparar o ritmo slow motion da contemplação ou divagação de minha infância, à esta aceleração em boa parte sem sentido que em paradoxo é a sensação da atualidade.

Apesar da enorme miopia de nascença que ninguém enxergava e sabe-se lá se algo fazia para subvertê-la aos olhos dos outros, havia em minha infância um outro tempo bem nítido em certo sentido. Era quando brincava de polícia e ladrão entre os meninos e  percebia o quão fácil era perder o  jogo pra eles, e em defesa gritava: ‘autos!’ A senha para sair de cena. E como num passe de mágica transformava completamente a minha realidade geralmente há poucos segundos de ser pega.

E da perspectiva em ser pega me transportava para a liberdade total. Ou quase.. Pois havia sempre alguém que dizia: ‘Assim não vale!’ Mas eu resistia: ‘Não vale por quê?’ Insistiam: ‘Não vale por que foi emcima da hora, ué!’ E eu respondia que ninguém havia mencionado qualquer coisa sobre o momento de se falar autos. Naturalmente dali em diante, todo mundo se valeu do mesmo artifício. Não demorou muito para que percebessemos que não havia mais sentido no que fazíamos. A atividade perdera a graça e resolvemos reavaliar as regras do jogo.

Não chegamos a lugar algum e houve uma cisão, alguns como eu abandonaram a brincadeira e outros continuaram como antes.

Quando alguns colegas vinham me questionar que não tinha nada a ver eu ficar de fora, que precisava voltar à brincadeira, reagia de maneira a continuar a brincar, ‘a minha moda’: ‘Mas eu estou brincando! Só que agora fico de autos o tempo todo.’ No que imediatamente reagiram: ‘Você não pode ficar de autos o tempo todo!’ E eu, mais uma vez: ‘A regra não diz nada sobre isso.’ Silêncio esquisito.

Embora a minha atitude não fosse lógica eu tinha razão. Se eles não compreendiam que razão sem sentido é aberração, de minha parte nada podia fazer se ingenuamente me divertia. De meu lado eu também não compreendia ao certo o que fazia, mas o que realmente parecia fazer sentido era que resgatara o prazer em brincar.

É exatamente isso que me falta agora, resgatar determinado sentido submerso (arquétipo). Como preciso de mais energia e sei que o sentido submerso está melhor resguardado por lá, não me inquieto por isso. Peço autos da vida que vai nos enquadrando sem dó nem piedade, pela tal ‘realidade’ que nos desvia de nossos próprios sentidos – por certa ingenuidade.  Resta abrir bem os olhos da alma em questão.

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