A Besta e o Coelho

De carona na inspiração da professora, Marfiza, viajamos através da música: ‘Eu nasci há 10 mil anos atrás’, escrita pelo Raul Seixas e Paulo Coelho.

Lembrei de quando era o preconceito em pessoa (vai tempo, mais de década) e dizia que não gostava do Paulo Coelho embora mal – muito mal – o havia lido. E o mesmo ocorre com inúmeras pessoas. Comecei mas parei por que não me sustentava sua literatura, ao meu ver, naquela época, destituída de poesia que me fizesse vislumbrar além espaços próprios.. Lia sim: os Dostoiévski, Dino Buzzati, J. Joyce, Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Shopenhauer que embora não seja ficção me faz viajar à paradas intrigantes desde os 16 anos. A lista de filmes era então mais metida a intelectual que isso aí. Em relação ao cinema sou de fato obsessiva e muitíssimo mais ampla do que restrita.

Apenas reli o Paulo Coelho depois das metamorfoses ocorridas em provocação ao processo de individuação precipitado de fato com o projeto de pintura contemporânea, Brinquedos e sua série de expôs que se seguiram na Europa. Percebi algo de maravilhoso, que transcende ao apego intelectualóide das paixões de estilos. Percebi que a simplicidade verdadeira tem fundamento no maior dos sentidos: o sentido-próprio. Quem é singular por natureza não vive de reagir aos outros, simplesmente vive em plenitude sem aderir a filosofia de mundo oposicionísta. Pois é assim que se favorece o ‘estado das coisas’. Enfim, não se move por preconceitos. Havia e há fundamento nas ‘dicas’ que o chamado mago nos transmite. E ele o fez de maneira magistral por que simples, podendo atingir leigos e eruditos. Eis a base de seu sucesso na minha humilde visão, acrescentem por favor outras pois sou desprovida de inteireza.. Os eruditos que digeriram o Paulo, o fizeram apenas após queimar os preconceitos na boca do estômago-chacra do plexo solar. Aonde habita a consciência, mas também o medo..

Experts de nós mesmos, adoramos nos diferenciar pela comparação, o que em geral compreende a subjulgação do outro. Compreende uma noção de Poder arcaica e ao meu ver, graças aos deuses: terminal! Ainda hoje acredita-se na superioridade de uma cultura erudita em detrimento do pop, ouve-se Mozart, lê-se Shopenhauer e assiste-se Herzog para se diferenciar da massa que simplesmente não foi educada para tanto. Não se compreende que o pré-conceito não está na erudição, mas no homem. O que importa é a máscara de superior. Pensar com propriedade não tem nada a ver com intelectualidade. Um pensamento realmente esclarecedor não exclui nada, nem intelecto, nem espírito, nem carne, reconhece que um homem em pedaços não possui a clareza de sua totalidade. Não somos diferentes pela cultura em que nos apoiamos, simplesmente. Não à toa, ela também contribuiu pra bosta de História da Humanidade que roda e roda a roda da fortuna no mesmo eixo das misérias há milênios constituídas. Cultura é um portal soberbo em termos de significação do Presente. Mas cabe ao homem amadurecer em-si, para utilizá-la com propriedade e sabedoria. Somos ou nos tornamos diferentes pela capacidade inequivocamente humana em ampliar consciências, refazer conceitos, crescer, expandir, evoluir! O resto é resto, pó, cinzas, esteco, carne podre.

Perdi uma amiga jornalista por causa de uma situação envolvendo o Coelho, vou aqui descrever pela primeira vez o ocorrido. Estávamos as duas passando por momentos difíceis, de luta, sacrifícios sem fim. Eu meditando dia e noite, em busca do pulo espiritual que me sustentasse a convicção de que havia luz ao final do túnel. Ela as voltas com livros de ficção chateada acusando editoras de não a desejarem por que tudo era ‘panelinha’. Ela escreve bem. E de panelas todo mundo já teve algum tipo de experiência, mas eu estava num tal momento que lhe recomendava insistir e não se ater tanto a ideia de panela, por que assim acreditava e acredito: não projetaria coisa alguma. Ela muito decepcionada pouco me ouvia.

Saiu a autobiografia do Paulo Coelho. Ela me falava que reconsiderara sua visão a respeito dele em alguns pontos, mas que de fato não o engolia e assim começara a me relatar ocasião em que fora até sua casa com uma colega também jornalista para produzirem juntas uma entrevista com o Paulo. Frisou que sua colega assim como ela não o suportava. Questionei o por quê e a resposta nunca vinha objetivamente, eram evasivas, geralmente relacionadas a postura de vida, sem uma única vez fazer menção aos escritos em si.

E assim relatou que ao adentrar na casa do escritor,  deu com uma estante com todos os livros do mago em várias linguas. Os livros estavam apoiados em santos. Esta era a sua ‘gota d’água’, não achava justo que os santos estivessem servindo de suporte aos livros. Foi categórica ao afirmar que uma pessoa que coloca santo para sustentar livros não poderia ser uma pessoa digna etc e tal.. Pra mim estava claro justamente ao contrário. A crença dele era tamanha que evocara a energia dos santos para com eles promoverem juntos seus sonhos. E o resultado é o que vemos e acredito fundamentar parte de seu sucesso pelo conhecimento na manipulação das energias.

A resultante da empreitada jornalística foi o abandono sumário do serviço sem a devida constatação, diálogo, abertura de espaços, confrontamento saudável entre as partes que pudesse promover uma maior compreensão dos fatos.. A amiga de quem falo eu já vi na sua base mais pura e verdadeira, ela é linda, generosa, engraçada e direita. Hoje percebo com extrema acuidade como estava doente. Na época eu também não poderia dar-lhe o devido olhar de compreensão, também eu vivia das entorces psicológicas, expurgando aos montes, sem foco que nos sustentasse. Assim nos afastamos.

Julgamentos e preconceitos são atitudes de uma oposicionísmo tacanho. Sou phd nisso, fui educada para tanto. Mas maior é o nosso chamado interior, quem quiser ouvir, precisa ‘baixar a onda dos sentidos’. Se for difícil, façam como eu! Gastem bastante e depois, abram bem os ouvidos e deixem o coração falar.. Preconceito e julgamento cegam a alma. Precisamos aprender a lidar com nossas próprias energias em relação direta com o entorno, um entendimento entre o homem e a natureza. Não há por que desvirtuar energia com o julgamento alheio.  A não ser que seja um verdadeiro juíz! De resto, é lidar com a própria energia, a sua máxima energia em comunhão com o entorno.

Observo que o Paulo Coelho cresce por que sabe se desligar depois de ter tido com o mais profundo de sua sombra. Por isso e também por que dizem, não escreve com o esmero de um escritor de estilo superior, recebe inúmeros ataques. Infelizmente há ainda muita mais inveja que desvirtua as pessoas de si-próprias, do que orientação de energias ao próprio intento, desejos e sonhos.

Por fim, disseram em nosso seminário que o Paulo Coelho e o Raul Seixas se apropriaram do conhecimento de madame Blavatsky, dentre outros. Atento, como de costume, o prof Alvaro lembrou que o mesmo aconteceu com outros. Pois o Freud não foi beber em outros? Jung, Picasso, George Lucas, etc.. Qual o problema? O mundo é uma colcha de retalhos. Estamos aqui para atualizar visões de mundo, a criação é uma amarga ilusão. Somos de fato seres imaginativos com raros insights de criação. Olha que quem vos fala já teve seu trabalho ‘chupado’ algumas vezes, de maneira leviana – premeditadamente me ‘furtarem a vez’.. Com este procedimento não há como concordar, mas não parei para espiar a loucura alheia por muito tempo, caso contrário ficaria louca também. Segui em frente.

Espero imaginar com propriedade, orientação, certo rigor e muito delírio arrumadinho, sistematizar também (sem jamais ser ortodoxa!). E embora adore receber inspirações criativas – é boa parcela do que me move – não vou ter pudores quando conceitos alheios me seduzirem (já não tenho..), deles me apropriarei e daí nascerão outras perspectivas, tantas quanto tiver energia para atualizar. E não é que desde pequena adoro colagem! ; )

Depois fiquei pensando, talvez o Paulo Coelho possa nos ensinar mais do que seus livros propõe através da sua história de vida. Êeee figura pra resistir a ira dos outros! Isso sim é sabedoria. Produz uma resistência que em planos espirituais vale o nosso ouro terreno. E assim como é acima, é aqui embaixo.. Acorda ser humano!

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3 Respostas to “A Besta e o Coelho”

  1. Marta Says:

    Andrea, adorei! Você expressou com enorme delicadeza e clareza os preconceitos que tolhem a nossa visão de mundo e nao nos permitem abrir outras e novas miradas, sobre nós e sobre os outros. A história com Paulo Coelho mexe comigo pois como você sentia um misto de curiosidade e rejeição. O conheci em 2000 na campanha mundial pela paz e o cara é maravilhoso, generoso e aberto, simples e direto, como seus livros e a sua trajetória. beijos e obrigada por esse pelo post.marta

    • Andreaha San Says:

      Oi Marta!
      Eu apenas esbarrei com ele quando trabalhava na Arte da Manchete/Bloch e ele negociava Brida com a TV. Gostei do olhar tranquilo. Mas reveladores foram o Alquimista e o Diário de um mago, em substância. É mole entender o sucesso que fazem. O mundo precisa daquelas informações.. de transcedência.

      Depois resolvi lhe escrever comentando uma passagem do livro e quando me dei conta estávamos de papo, curto mas assíduo. Um figura que respeito, admiro de longe, tem qualidade e exemplos a fornecer.

      Obrigada você pelo comentário, a questão Paulo Coelho é intricada, promove distorções de valores.. Legal ter a sua acuidade por perto.

      beijos, Andrea

      • Marta Says:

        Estamos em processo de desnudamento, curso vem ajudando e essas trocas também. ë muito bom preceber a tua antena sensível nessa caminhada. bj, marta

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