Há um Abismo entre o Ideal e a Prática

Reuniram em curso de especialização, das 9 as 19 hs, numa sala do tipo caverna, um grupo heterogêneo de entidades humanas. Onde portanto tudo pode acontecer. Desde trocas ligeiras em profunda intimidade à momentos explícitos de significativas compulsões. Afetos e preconceitos naturais. Há quem goste, há quem se irrite, e não raro há também reconsideração de posições. Através de nós cultua-se uma espécie de laboratório de divergentes convergências. O que é no mínimo, rico.  Somos um grupo, que se por um lado, não se nivela por critérios de excelência acadêmica,  por outro lado, possui o grau de heterogeneidade que somente uma apurada maturidade (ou o desenvolvimento da mesma ‘in loco’) perante a situação, capacitaria. Neste sentido, somos um pequeno mas significativo grupo, onde foi-é possível a diversidade. Algo ainda incomum em meio acadêmico. Mas que vem levantando muita bandeira pelos 4 cantos do mundo. De unânime restou-nos a sala: inadequada à um dia inteiro de teoria, simplesmente por que o corpo acusa fadiga.

Ao meu ver e de alguns colegas, talvez a maioria, a nossa sala é inadequada ao exercício da plástica associada a meditação, e o mesmo serve aos exercícios de sensibilização teatral, onde o número de pessoas ultrapassa  a possibilidade de extensão completa dos corpos em movimentos contínuo e por que não.. o exercício de movimentos cegos. Não há espaço para o exercício da cegueira.

O teórico parece não se importar com o espaço do desenvolvimento plástico, concentrando-se por completo na logística do fazer, seus instrumentos e medidas de controle, classificação dos métodos e possibilidade de desenvolvimento. Trata-se da visão abstraída dos princípios da Vida. Uma visão que equipara necessidades e portanto seres humanos. Como se fossemos comparáveis! O exemplo está em toda parte, é só espiar pra ver.. Mas disso os teóricos sabem! Por que continuam a reproduzir métodos que de real e verdadeiro pouco poderão colher? É nesta pseudo-prática que investem. Onde se estabelece um abismo entre o ideal e a prática. Em termos de manifestação expressiva, quando teoria antecede a prática, um descompasso existencial se estabelece.

Um caminho idealizado é um caminho perigoso, na sua ingenuidade ou prepotência não considera a dinâmica da Vida, torna-se cego ao viver. As verdadeiras necessidades são necessidades próprias, e estas nascem da prática pessoal. Eu desconfio de quem impõe necessidades, este procedimento se aproxima da retórica, da política, de uma Justiça platônica, abstraída do real, propensa à própria antítese, ao luxo de uma intelectualidade simulada e ao desperdício de vidas.

O caminho se faz passo-a-passo ao caminhar, caso contrário se construiria em teoria. Seria a ilustração de um caminho, jamais o próprio. Nada pessoal..

A vivência artística possui dimensões próprias. O fazer artístico por excelência é translado espacial(uma vez que faz a ponte entre o interior e o exterior) o que somente cabe a quem a executa. Este ‘translado espacial’ é ao meu entender um dos maiores aprendizados que propõe a manifestação artística, é justamente aí que se dá a importância da relação: entre arte e psicologia. Uma serve a outra pela amplitude da consciência.

Vai demorar algum tempo ainda para que compreendam que o processo que vislumbram não passa de teoria ilustrada. Vivência artística ou meditativa é de outra ordem. Meditar para o ocidental significa reaprender a respirar e encontrar neste processo acesso pra mundos interiores. Fisiologicamente, meditar significa baixar a frequência cerebral, pra quem não a tem como rotina, é preciso um mínimo de prática. No geral, é cada vez mais difícil para o ocidental baixar a frequência cerebral e se concentrar, uma vez que a sociedade por aqui investiu numa filosofia de vida oposta. 

Uma coisa é falar de arte, outra coisa é fazer arte. Uma coisa é idealizar o sentido, outra coisa é experimentá-lo.

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4 Respostas to “Há um Abismo entre o Ideal e a Prática”

  1. Marta Says:

    Querida,
    uma linda reflexão feita com cuidado e a devida profundidade. A experiência interditada nos nutre tb de outras reflexões, que vão do espaço inadequado que surge como desafio a imaginação – a semelhança dos vivenciados pela massa humana nos 4 cantos do planeta – que nos leva a perguntar: como criam aqueles que vivenciam a ausência (ou compressão) do espaço? Eis uma bela questão para nós que estamos percorrendo o caminho da arte através da leitura junguiana.
    beijos, marta

  2. Andreaha San Says:

    Marta, obrigada pelo combustível!
    Tenho muuito carinho pelo trabalho desenvolvido em Brinquedos, pinturas inspiradas na estética do HQ. Todas com base em meditações que me recordaram o imaginário da infância. Quando criança, ao brincar, contruimos a felicidade pelo imediato acesso ao imaginário em relação direta com a vida consciente através de uma prática que nada mais é do que exercício de autoconhecimento – o que chamamos de brincadeira. Uma relação sagrada que nos eleva das condições vulgares de tempo/espaço e definições em sociedade. E não à toa experimentamos um sentimento de liberdade que nada mais é do que prazer oriundo da inerente manifestação expressiva. Fala sério, isso é que é realidade!
    Jung diria que é a conexão, o religare entre complexo e arquétipo, liberando energia estagnada à consciência. ‘Do Pai, ao Filho cruzado pelo Espírito Santo..’ De minha parte preciso praticar, mais e mais.
    beijos, andrea

  3. Sheila Says:

    Andrea,
    Seu pensar além de bonito e maduro, me tocou bastante. Meu desafio atual é tentar sair das minhas infinitas teorias e SER um pouco mais, viver a vida prática. Até minha espontaneidade vem de minhas teorias.
    Beijos,
    Sheila

  4. Andreaha San Says:

    Sheila, eu creio do fundo do coração que a grande oportunidade em Ser é a relação com o Mistério.

    Quando despertos à Vida nos inspiramos. Antes de qualquer concepção, o ‘lugar’ é vazio ou pleno em evocação. É o chamado. Não à toa, a relação com o outro é tão promissora, e o Afeto, oriundo do coração, é o que proporciona sentido pra Arte que a tudo costura e aproxima proporcionando (re)união/ou casamento.

    Quando percebemos que o Mistério somos nós, compreendemos Deus como invenção humana. Assim, Deus somos nós. O livro que você escreve é o que, senão Você!? Personificar Deus como entidade externa me parece estranho, inconcebível.

    O Universo de aparentemente infinito e distante, torna-se a semente da (re)Criação. Diferente do que atribuiu Platão, viciando o ocidente da unilaterização das abstrações ideais, o artista vulgarizado e marginalizado pela inconsciência da sociedade, é o maestro da criação. Além disso, muito antes de qualquer orientação Estética, o artista somos todos nós, pois princípio inerente à Criação.

    Preciso terminar um relatório, depois publico um texto específico sobre a teoria, inspiração que você me forneceu. Merci!
    beijos, Andrea.

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