O Homem sem Sentido. Artigo em Liquidação

Penso que todo homem tem sua dose de artista, criança, médico e filósofo. Ainda que completamente absorvido por sua especialidade e por conseguinte, pelo seu entorno. Um entorno como este presta-se ao desenvolvimento do especialísta, fora desta realidade não admite maiores voos. Um entorno como este é o ‘porto seguro’ do profissional contemporâneo. Infelizmente este é o legado de nossa sociedade (tem coisa boa também, mas estamos nos concentrando aqui nas perdições). Projetamos este tipo de realidade. E assim tem gente que se acha moderna, ‘in’, sofisticada, renovada, detentora de uma jovialidade que não tem mais fim, nem propósito! Este modelo social não tem nada de avançado, pelo contrário, é um triste modelo de perdição. Um miserável entorno como este não atende ao humano por inteiro.

Ao especialísta é necessário reunir o generalísta, caso contrário por mais sucesso profissional que se possa ter em algum momento uma faceta ‘sem sentido’ do Ser, vai surgir e perturbar.  Uma sociedade como a nossa que valoriza o homem pelo que ele apresenta, especialmente pelo que se torna visível e consumível, é uma sociedade incomensuravelmente restrita. Como enxergar nesta orientação mutilada, o desenvolvimento da diversidade humana?

A televisão seria cômica, se não fosse bizarra. Outro dia vi no programa,  ‘Saia Justa’, uma moça detonando os artistas que somente querem fazer arte. Oi?!? Até quando vamos ter que prestar contas de nossa função social? Até quando vamos precisar fazer dupla-jornada para sobreviver? Pra poder resistir e um dia quem sabe auxiliar no crescimento da consciência alheia. É desumana a compreensão social de que ‘ser artista’ é sem-vergonhice, atividade fácil e desprezível. Ser artísta é o que somos!!! Você procurador público, administrador, figurinísta e nós artistas da inspiração criativa!

Em boa parte é assim que se explicíta a ignorância de muitos formadores de opinião e seus leitores. Esta moça do ‘Saia justa’, posso estar enganada mas acho que ela é filósofa, não sabe o quão angustiante é a vida de um artista em meio a esta sociedade que erroneamente ela ajuda a formar. Uma sociedade preconceituosa que pouco vive a vida, mas muito dá pitaco na vida dos outros. Em geral daqueles que ousam viver.

Quanto mais fora da moda e dos padrões do condicionamento social – que traduzem uma sociedade louca por super-homens ou celebridades – mais artista é o sujeito. O mundo da comunicação está repleto de pensamentos destituídos de vivência como o que apresenta a participante da rodinha de mulheres do ‘Saia Justa’ (desculpem não atentei para o nome dela). A sociedade não precisa de ‘formadores de opiniões gratuitas’.

Este é o caminho desviado de uma sociedade progressísta. Assim quem não sobrevive é o espírito. Uma vez morto, morre o artista e sobra um homem sem sentido,  artigo em liquidação na era do desinformador de opinião. E mais uma vez vejo-me na posição de quem precisa enfatizar: Ser artista não é mérito da profissão. Esta é uma das faces de nosso espírito, seja cozinheiro, cobrador, padeiro, jornalista, engenheiro, filósofo, cineasta ou presidente da república. Ser artista é mergulhar fundo e emergir senhor de seu agir. 

O caminho do ser humano é buscar ser ele mesmo, autêntico. Pra isso ainda não há incentivos sociais, fiscais, apenas naturais. Tudo bem, é só não falarem do que não vivem, do que desconhecem. Se houvesse a consciência de não levantar juízo – em público – sobre aquilo que não se conhece, o mundo seria bem menos confuso e neurótico. Especular entre amigos é até importante pra refletir, desenvolver o pensamento, frear a ignorância, sonhar junto. O que não parece digno é a posição do formador de opinião sem conhecimento de causa. Deveríamos questionar o uso indevido do meio de comunicação.

Ninguém nasce pronto, caso contrário pra que nascer? Consciência se forja com muito suor, sangue,vontade e espírito guerreiro. E em geral está longe de ser mérito de intelectuais, ela nasce de gente simples, gente de verdade.

Numa sociedade como a nossa que deseja amadurecer modulando a natureza através da cultura, o sentido daquilo que se faz não pode ser extraído de outra realidade que não seja própria. Esse é o grande valor e paradigma que a educação deveria enfrentar. Esse é o caminho que o artista se propõe, e ainda dizem que é fácil, não tem função social, coisa de desocupado. A ignorância é imensa num mundo dividido entre especialistas e generalistas. Está mais do que na hora de reunir os fios soltos. Só existe valor real, pois indissolúvel na autenticidade. O artista-em-cada-um-de-nós é o único Ser, dentre a legião-estrangeira que nos possui e consome, predisposto a transformação.

A educação continuará a ser uma opção de desenvolvimento humano vexaminosa, enquanto não estimular as riquezas de nossa humanidade, modernamente compreendida como diversidade. Matemática, português e ciências são matérias estéreis em si. Matéria-Viva é o modus operandi, o processo, o modo de agir. O processo pelo qual podemos interagir com as disciplinas é o fator diferencial a partir do qual se coloca em cheque a filosofia educacional. Da hierarquização à reprodução de fórmulas, memorização e sistematização dos processos. O diferencial é a característica de cada um, a manifestação única, singular. Neste sentido mais vale um indivíduo pleno em si mesmo do que uma série de identidades, destas que facilmente se reproduzem por aí.

É necessário formar professores para despertar e desenvolver o que existe de melhor em cada homem. Somente homens realmente inspirados podem inspirar. O resto é intelectualísmo, não serve pra nada. E cada vez mais será assim por que embora nos falte consciência em massa, a mesma vem avançando ainda que a passos de cágado. À consciência não existe movimento retrógrado.

A sociedade ainda não entende a sua verve artística. Acha digno trabalhar e indigno fazer arte… Dizem os mais sábior que cada um tem o que merece. Se construimos a nossa realidade, quando reclamamos da mesma é por que somos ignorantes em relação aos nossos próprios atos. 

Este é o caminho da evolução humana, como uma tartaruga que resolve dar a volta ao mundo.

Quantas civilizações mais serão necessárias pra amadurecer o homem?

Cultura e natureza fazem todo o sentido se enlaçadas com Humanidade.

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