Árvores Modeladas pelo Vento

Tenho andado cedo pelo aterro da Flamengo depois que terminei a pós na Puc. Primeiro pra desligar da concentração excessiva dos últimos 2 anos, mas também pra dar tratos a forma. Andar é como meditar, sempre penso (me inspiro) melhor depois de longas caminhadas.

Aproveito pra fotografar certas belezas da paisagem pra incluir nas próximas produções. Elas podem estar no céu, na terra, mas de certo se traduzem pelo enlace entre a realidade e a minha imaginação.

Duas coisas me chamaram a atenção. Uma flor robusta e rica, tem pétalas exteriores e um interior mais plástico e forte, de onde saem uns ‘cílios’ entre o branco e o rosa. É linda sem ser óbvia como um clássico, pelo contrário, é bem diferente do que se espera de uma flor, mas ainda assim linda. Pra maioria das pessoas o clássico é insuperável. Compreensível para quem se apega a estética de modelos exemplares. Mas há quem pense diferente. É o meu caso, e diferente do que muitos pensam por aí também tenho os meus modelos exemplares, mas estes não se encontram ‘apenas’ lá fora, estão sempre aqui dentro, no fundo do coração. São sempre enlaces entre planos interiores e exteriores.

Um clássico é o auge, o apogeu. É o ponto final ou máximo de uma evolução. É difícil caminhar em paralelo a cultura do clássico. O entorno, a sociedade baseada na ideia de apogeu, só entende a noção de finalidade própria aos clássicos caminhos. Eis a semente de uma sociedade progressista. Para esta não existem descaminhos, dúvidas, erros, simplesmente por que seguem um caminho por outros caminhados. Desta maneira não se pode enxergar sentido em quem segue um percurso próprio que não se pode explicar. Um caminho aparentemente indefinido, sem mapa ou guia. O percurso próprio leva a um ‘sobe e desce’  que me parece sempre mais interessante do que aquilo que ‘chega no ponto previsto’. É isso que penso, caracteriza esta flor. Ela não é um clássico, belíssimo e incontornável. Ela é a complexidade de um percurso com todas as suas possibilidades e ramificações. Ela é o mistério e a coragem de quem nele mergulha em busca de si-próprio. É a busca, jamais o produto final. Portanto incompreensível perante a ilusão de certeza e segurança a que se propõe uma sociedade programada. Meio rude, de fibra invejável e selvagem, ainda que suave, esta flor é menos resistente do que um clássico. Este é o grande diferencial. Toda semente de um novo mundo precisa romper-se um dia – morrer pra vir a ser.

Outra coisa que sempre me chamou a atenção e agora não é diferente, são as árvores baixas e retorcidas pelo vento. Elas formam labirintos no entrecruzamento de suas ramificações. Um deleite para olhares mais atentos. A ‘paisagem externa’ é em boa parte aquilo que me trouxe ao espaço. Mas acima de tudo, vim pelo cuidado em buscar o equilíbrio psíquico. Interior e exterior, embora convenções da realidade que abraçamos socialmente, é na ‘realidade das realidades’, uma mesma coisa. O equilíbrio psíquico é totalmente dependente da integração entre consciente e inconsciente.

Árvores retorcidas pelo vento parecem um louvor ao absurdo. Aquilo que deveria subir é contido e por isso curva-se, cresce por horizontais e verticais mínimas.

Não importa o quão dura seja a matéria, a Vontade persistente vence a mais dura das resistências por que desconstrói tensões.

Não importa o quão dura seja a realidade, um sonho alimentado pode durar uma vida, mas um dia torna-se matéria.

Viva as flores rudes, fibrosas e selvagens cujo o destino é desabrochar novos caminhos. Viva o acasalamento das árvores e do vento.

A volatibilidade da matéria é a chave da equação existencial. A chave do equilíbrio das Energias.

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