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Via Láctea 1

abril 26, 2009

 

O filme, Via Láctea, foi escrito por Buñuel e Jean-Claude Carrière, tem 100 mins de duração e revela um misto de gêneros: drama-histórico, comédia. A dupla produziu uma verdadeira obra de mestres.

 

Se por um lado o filme me atraiu por transmitir a lógica sócio-política e religiosa da idade média, com base na Espanha e França (ainda que não se trate da compreensão do espírito da época, por agora me satisfaz tal lógica), por outro me seduziu por completo pela hilária relação entre os dois vagabundos, que rumam para o Caminho de Santiago, e os homens do Poder: monarcas, padres e defensores da lei.

 

Relação que expôs a histórica heresia da igreja católica e sua decadência em contraste à autenticidade dos vagabundos andarilhos. Ainda que tenham deslizado em isolado delito, o roubo do presunto, este baseou-se em princípio autêntico, a fome. A autenticidade dos vagabundos está presente em toda a trama através da significativa caminhada pela sobrevivência associada a um sugerido desejo de transcendência na busca pelo caminho sagrado. Ao fim, contrapõem-se: a constante movimentação dos vagabundos-andarilhos, ao delírio intelectual e inércia dos senhores do Poder.

 

Desconcertante é a construção arrebatadora que relaciona o surrealismo ao dogmatismo de maneira a desembocar na confusão dos princípios que naturalmente se traduz em loucura (esta, aqui, nada tem de pura, é justo o seu contrário).

 

Aos vagabundos é reservado um destino puro, rumo aos mistérios da vida enquanto movimentam-se e a descobrem em meio a caminhada. Aos senhores dos poderes dogmáticos e unilateralidade intelectual, resta o desencontro com os mais básicos princípios da vida. Natural parece portanto, o encontro com a loucura.

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Via Láctea 2

abril 26, 2009
Mané Dengoso e seu Lagarto Escabroso - Pintura / 2003 / Andrea
– Mané Dengoso e seu Lagarto Escabroso – Pintura mista s. tela / 2003 / Andrea


Quando estive em Santiago de Compostela, não havia qualquer intenção em peregrinar. Fizemos o caminho todo de carro.

 

Estivera na Bretanha pra conhecer a família de meu namorado. Em seguida retornamos à Alès para restaurar algumas pinturas que vieram do Brasil para minha individual, Brinquedos, que ocorreria logo após a Bienal de Cerveira em Portugal. A Bienal me convidara à expor o: Mané Dengoso e seu Lagarto Escabroso. Época em que a minha pintura denunciava o formato HQ ou ‘quadrinhos’ que desenvolvo agora de maneira ‘convencional’ – embora nem tanto..

 

Cruzamos de leste à oeste o sul da França, no limiar do norte da Espanha, e pernoitamos numa aconchegante casa de pedras. Uma única noite de estadia e tive um sonho que se realizou com o nascimento de minha sobrinha, Estela. Não sabia ainda, mas minha irmã havia vencido questões pessoais que a afastavam da possibilidade de engravidar da nossa tão evocada caçulinha. Não foi apenas uma visão iluminada, significou uma grande vitória de minha irmã.

 

O título do filme de Buñuel, Via Láctea, é referência a Santiago de Compostela, do latim, Campus Stellae, ou Campo das Estrelas. Remete a luminosidade que, dizem, sinaliza as estrelas que estão sob a tumba do Santo. Assim como a Via Láctea produz um traço estrelar, diz-se que o Caminho de Santiago reproduz este traçado na Terra. Por isso, ele é também conhecido como Via Láctea.

 

Um caminho sagrado simboliza, a grosso modo, o enfrentamento dos desafios pessoais que naturalmente podem conduzir à uma elevação de consciência devido a transmutação de paradigmas.

 

Há pouco tempo percebi a relação intrínseca do nome: Compostela e da Estela. O nome de minha sobrinha (de apenas 3 anos) tão querida, amada e ‘comparsa’ ; ), significa estrela… A isso o senso-comum  chama de coincidência. De minha parte como não participo de qualquer ‘seita cultural’, sou apenas eu e o mistério da vida, prefiro no encaminhar da mesma observar qual o sentido do sinal.

 

Afinal, se o meu corpo produz dores, efeitos que traduzem causas diretas e indiretas, por que o mesmo não ocorreria em relação a Natureza, se somos a micro realidade de sua macro existência?

 

Por que eu tive o privilégio de ver a minha pequena antes de qualquer pessoa, há prováveis 8 meses de seu nascimento? Por quê? Pra quê? Como? Seria adequado compreender ou apenas observar? De novo.. Porquê?

 

Sonhos proféticos eram bem mais comuns em minha infância do que na vida adulta. Há poucos anos analiso o processo e por ele mais facilmente me reencontro através da meditação. É lá no vácuo de minha existência física, que reequilibro todos os níveis corporais, apta a vislumbrar uma realidade que não depende apenas da visão e demais sentidos – é certamente de outra ordem. Mas isso é outra história..