Posts Tagged ‘cinema’

Via Láctea 1

abril 26, 2009

 

O filme, Via Láctea, foi escrito por Buñuel e Jean-Claude Carrière, tem 100 mins de duração e revela um misto de gêneros: drama-histórico, comédia. A dupla produziu uma verdadeira obra de mestres.

 

Se por um lado o filme me atraiu por transmitir a lógica sócio-política e religiosa da idade média, com base na Espanha e França (ainda que não se trate da compreensão do espírito da época, por agora me satisfaz tal lógica), por outro me seduziu por completo pela hilária relação entre os dois vagabundos, que rumam para o Caminho de Santiago, e os homens do Poder: monarcas, padres e defensores da lei.

 

Relação que expôs a histórica heresia da igreja católica e sua decadência em contraste à autenticidade dos vagabundos andarilhos. Ainda que tenham deslizado em isolado delito, o roubo do presunto, este baseou-se em princípio autêntico, a fome. A autenticidade dos vagabundos está presente em toda a trama através da significativa caminhada pela sobrevivência associada a um sugerido desejo de transcendência na busca pelo caminho sagrado. Ao fim, contrapõem-se: a constante movimentação dos vagabundos-andarilhos, ao delírio intelectual e inércia dos senhores do Poder.

 

Desconcertante é a construção arrebatadora que relaciona o surrealismo ao dogmatismo de maneira a desembocar na confusão dos princípios que naturalmente se traduz em loucura (esta, aqui, nada tem de pura, é justo o seu contrário).

 

Aos vagabundos é reservado um destino puro, rumo aos mistérios da vida enquanto movimentam-se e a descobrem em meio a caminhada. Aos senhores dos poderes dogmáticos e unilateralidade intelectual, resta o desencontro com os mais básicos princípios da vida. Natural parece portanto, o encontro com a loucura.

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Que Viva México! – Eisenstein

julho 5, 2008

1931/1979 – Direção de Sergey Eisenstein – Produção: Grigory Alexandrov – Fotografia : Eduardo Tisse – Reconstrução : Grigory Alexandrov – Nikita Orlov. 85 mins. – p e b.

Da filmagem até a edição finalizada foram-se quase 50 anos. Problemas com a produção em Hollywood acabaram por inviabilizar a edição e infelizmente Eisenstein não pode editar o seu filme e faleceu antes de vê-lo pronto. Em 1979 Alexandrov editou a versão definitiva obedecendo fielmente ao projeto original, através das enormes anotações e storyboard de Eisenstein.

O produto final possui o espírito e talento do cineasta que nos revela um México encantador, brutal, passional, mágico e surreal. Das violentas touradas e expurgo animal dos instintos humanos, passando pela sensual extração da seiva dos cactos por sucção; imagens exóticas nos desertos de Tehuantepec e o envolvente ‘Dia dos Mortos’ que perpetua uma divertida imagem da caveira como alegoria festiva presente em taças, máscaras ou esculpidas no chocolate alimentando sonhos e prazeres de crianças sorridentes.

É um filme belíssimo cuja a narração característica de Eisenstein, dedica-se à exposição de pequenas histórias num misto de documentário e ficção bem acasalados.

Que Viva México é um filme narrado com vigor e pedagogia suficiente para se fazer pensar até os mais preguiçosos expectadores. Imagens sedutoras construídas com rigor, numa verdadeira colcha de retalhos que caracteriza a riqueza histórica e cultural revelada por sua orientação política e social. São dramas de vida e morte que pulsam visceralmente.

A condição do filme em preto e branco me fugiu por completo em função da imaginação fortemente atiçada pela linguagem desenvolvida. Enfatizo os enquadramentos e detalhamento na composição das imagens. Confesso que, mesmo sabendo que o filme fora rodado por completo em p e b, revi várias sequências do deserto de Tehuantepec em busca da sensação que me impregnou o espírito de tons terra, por vezes árido ou cru e até avermelhado pelo gosto final de sangue, chocolate de caveiras e sorrisos ensolarados.

Da simplicidade de seus recursos ao esmero da narrativa, estruturação e costura fílmica(montagem), Eisenstein é sempre uma aula de visualidade, observação e vida.

 

Laranja Mecânica e Autonomia Política

junho 29, 2008

O Filme da vez..

Do original : ‘A Clockwork Orange’, de Stanley Kubrick, rodado em 70 e lançado em 1971.

Vi este filme pela primeira vez na adolescência, há uns 20 anos. Pela crítica social que implica me senti como que em catarse. Exatamente o mesmo ocorreu poucos anos depois quando assisti: ‘Saló 120 dias de Sodoma’ de Pasolini.

Adorei a plástica psicodélica das ambientações e figurinos de Laranja Mecânica, um misto de jardim de infância com cheiro de sexo e rebeldia, enfatizado pelos acessos de selvageria intelectualizada expressas com primor por Malcolm McDowell. Era tudo o que eu acreditava precisar para externar a minha própria fúria mediante um mundo que entendia como algoz.

Muita coisa mudou de lá para cá.

Primeiro, o filme não me atiça o instinto como antes. Segundo, vejo com clareza que apesar de todo o culto a violência, no qual investimos de várias formas, o mundo não é a porcaria que eu enxergava há duas décadas atrás. Apesar dos pesares, tenho em alta conta os seres humanos e um mundo não se constrói por si só.. No final das contas a responsabilidade é sempre nossa: atuando, concebendo, reagindo, omitindo, fugindo, alienando ou construindo.

Pr’ além da ingenuidade assim como da ignorância dos tempos de juventude – independente se um mal do próprio espírito, contexto familiar, genética ou ambas as alternativas, como acredito ser – o importante é perceber a gênese do julgamento, instrumento da moral em que se baseia uma sociedade que desconhece a própria natureza.

É sempre um bálsamo lembrar de Madre Teresa de Calcutá: ‘Quem julga não tem tempo pra amar’.

Era aí que eu gostaria de chegar. Ao julgarmos utilizamos o tal senso crítico para nos separar do que possuímos de mais genuíno : o sentimento natural de compaixão que nos reune ao semelhante, ou à nós mesmos. Ao criticar e não compreender, mergulhando nas dores e misérias alheias, assim como nas próprias (por que também é comum julgarmos a nós mesmos de maneira cruel e implacável), estamos construindo uma sociedade moralista e preconceituosa, que não enxerga além de preceitos sociais separativístas, barganhando a própria humanidade – nossos valores e potenciais intrínsecos – pela ilusão de segurança que nem a saga que a corrupção política desenvolveu e desenvolve durante toda a sua história, é capaz de encerrar.

Laranja Mecânica não faz o mesmo sentido pra mim. Sem sombra de dúvidas é um filme maravilhosamente realizado. O argumento é baseado na corrupção sócio-política, delinquência juvenil e desumanidade sem limite. Infelizmente ainda se sustenta através investimos massivos numa filosofia de vida que ao meu ver já nos revelou o que tinha pra revelar. Eis aqui um retrato de nossa sociedade tão atual quanto há quase 40 anos, época do lançamento do filme.

Por outro lado eu fui além daquela compreensão juvenil quando aprendi a escoar a minha própria selvageria adquirindo nova consciência dos fatos que reprimiam o meu espírito. Penso que a partir do momento em que percebemos a nossa participação no enredo da vida, os horizontes se alargam sem mais chance de se estreitarem. Neste caso, fica claro e cristalino quando estamos simplesmente reagindo a ação de outros ou quando estamos inspirados pela nossa própria natureza a conceber uma vida independente e paralela: o nosso caminho de origem e propriedade.

Criticar ou reprimir são paradoxos os quais a Humanidade precisa se ver livre, uma vez que investe-se energia vital naquilo que não se deseja desenvolver ao invés de investir nos próprios interesses. Ao fazer desta atitude rotina, já era a energia pra se realizar os próprios sonhos.

Uma vez redirecionada a energia, caminha-se adiante. Vale a pena refletir com coragem, simplidade e desapego :

Onde, por natureza e propriedade se encontram os nossos verdadeiros interesses e sonhos?

Perspectivas – Da Fuga à Inspiração

junho 10, 2008

Seria particularmente difícil produzir um filme nos moldes da estruturação formal como reza a tradição narrativa. Conheço suficientemente bem roteiro, estilos e planos de filmagem, o formato(narrativa e todo o procedimento, do argumento à pós-produção) não me inspira. O meu universo é definitivamente outro, e nele implica a exploração de novas linguagens por impregnância direta de procedimentos pessoais (subjetivos) quanto a estruturação narrativa. Estes procedimentos têm como objetivo o autoconhecimento.

Na construção de meus webvídeos(ou webartes), planos e roteiros são as bestas de um espetáculo dedicado à exploração das possibilidades e recursos inerentes a internet. Bestas por que findo por subvertê-los, ainda que sem abrir mão por completo de sua concepção original (não busco a apropriação exterminatória, mas certo paralelismo).

O meu desejo de expressão nunca foi afinado com a tradição social, o que provocou diversos curtos-circuitos existenciais enquanto ignorante das qualidades inerentes ao meu ser. A minha expressão remete a coalisão entre o instinto, a razão e fundamentalmente o mistério.

A natureza de minhas produções em webvídeo estão bem definidas na natureza do site globalaio. Acrescentaria apenas que não considero a realidade lugar comum (como proposto em sociedade), considero a realidade campo de realização da inspiração subjetiva. Através do diálogo entre possibilidades externas e internas, procuro compreender e melhor revelar a dicotomia da perspectiva existencial.

Por fim trabalho de maneira a injetar certa dose de humor como fator terapêutico à ‘expressão de mundo que nos circunda’. Acredito que conheço um pouco de muitas coisas, do aspecto técnico ao aspecto filosófico, psicológico e alguma coisa do antropológico e espiritual. Em todos estes aspectos desejo me aprimorar e também por isso desenvolvo este Blog.

 

A Trilogia em VideoArte: ‘Internet tem Alma’, será postada aqui na Terra Virtual e na Categoria exclusiva para a Trilogia , aí à direita: Internet tem Alma – Trilogia em VideoArte

1o. – Internet tem Alma?

2o. – Internet tem Rosto?

3o. – A definir…

Na Companhia de Homens

junho 8, 2008

‘Na Companhia de Homens’ é um filme que me impressionou. A grosso modo ele fala de manipulação, mas vai muito mais longe. Trata-se de um filme aparentemente despretensioso, mas que surpreende pela enorme categoria com a qual tira partido de uma construção narrativa impecavelmente bem elaborada.

Planos e roteiro muito bem arquitetados, diálogos inteligentes, cenas produzidas sob medida, sem o menor desperdício.

A opção pelo preto e branco que impregna as cenas de rigor estético – ao invés de limitar, surpreendentemente empresta certa atemporalidade à composição. Show!

A trama é engraçada, dramática e sarcasticamente instigante. Vou desenvolver o raciocínio sobre a narrativa, mas não vou dar ‘o pulo do gato’ da trama por que não quero ser estraga prazer. O filme merece ser degustado sem maiores interferência.

Dois colegas de trabalho, chutados por suas respectivas companheiras, resolvem se vingar das mulheres orientando todo o ódio que nutrem por elas focando em uma mulher frágil e ainda por cima surda. Uma jovem que possui recalques face a própria deficiência, torna-se a vítima perfeita pela qual esperavam.

É verdade que eu cheguei a duvidar quando o bonitão do filme revelou ao amigo e colega de trabalho que sua companheira de mais de 4 anos o havia largado. Cá entre nós, naquele princípio de filme e poucas referências no ar, querendo ou não as aparências tem o seu momento chave resguardado de maiores(ou menores) conotações. E aquele era o tipo de homem que terminaria com as convicções de qualquer solteira convicta. Mas no que o filme vai se desenvolvendo, você vai percebendo um ‘babaca profissional’ em forma de Apolo. Nem tudo é perfeito. A escolha do ator sim, foi – deliciosamente – magistral. Ele encarna um sujeito que aos poucos vai se revelando especulativo e manipulador, embora transmita desde as primeiras cenas ser alguém seguro de si. O que obviamente não significa equilibrado, mas de relance pode ser compreendido como tal.

O outro sujeito, seu amigo de vingança, torna-se chefe de equipe, o que inclui comandar o Apolo-babaca (desculpem, mas a quem interessar nomes de atores, o Google pode dar conta do serviço, o nosso negócio aqui são impressões sensíveis acerca da narrativa e construção audiovisual).

O chefe é um cara sem sal, perguntem a qualquer mulher e não darão mais que isso. Mas também um ator muito bem orientado pelo perfil de seu personagem, desempenhando seu papel com dignidade.

Ao iniciarem, em paralelo, as investidas sobre a jovem deficiente, o Apolo leva larga vantagem, como qualquer pessoa poderia presumir sem qualquer presunção, era possibilidade certa. Mas o chefinho sem sal também sai com a moça. Não tarda para que descubramos que há muito ela não tem relações com homens – como o Apolo havia vislumbrado ser o tipo de mulher ideal para que o plano fosse realmente fatal à vítima escolhida.

Ao perceber que o chefinho sem sal estava se interessando verdadeiramente por ela, a moça que já mantinha relações íntimas com Apolo, revela ao chefinho que há muito não se sentia desejada pelos homens e que portanto ultrapassara os limites da conveniência ao aceitar sair com dois ao mesmo tempo. Ela então resolve dispensá-lo, mas ele não se contém e resolve dar pra trás no jogo arquitetado com o Apolo, revelando à moça toda a armação.

Seguindo a lógica do Apolo, eles deixariam a vítima se apegar para depois abandoná-la sumariamente a própria infelicidade. Assim estariam vingados de suas respectivas ex-mulheres, ou melhor: vacas, como mencionara repetidas vezes.

Além de babaca o Apolo é realmente personagem múltiplo, ele revela toda a sua dualidade ao manipular um de seus subordinados instigando-o a abaixar as calças demonstrando, literalmente ter culhões para integrar a empresa. Embora a atitude revele o lado negro do ‘bonitão profissional’, muito antes de descobrirmos que Apolo manipulara até mesmo seu

velho colega de trabalho, a cena é mais um indício de que Apolo tem profundos complexos. Informação muito bem plantada com o auxílio de cortinas que restringem a visão do ambiente e criam um clima de maior intimidade e intimidação entre o patrão e o subordinado.

Mas o pior ainda estava por vir e desabou sobre o chefe sem sal e a jovem surda, quando este se viu apaixonado pelo alvo da vingança enquanto a percebia literalmente ‘de quatro’ por seu amigo.

Daí em diante desandou tudo num enredo de carências mútuas em manipulações sem quaisquer pudores, orquestradas pela ambição desmedida de Apolo por ascenção no trabalho. Apesar de Apolo ter conquistado o posto de seu colega tornando-se o chefe da vez, seu sorriso e indiferença as carícias da companheira mais remetem à insanidade de sua solidão interior do que ao triunfo profissional.

Por outro lado a cena final é maravilhosa. O ex-chefe sem sal, desesperado pela traição sofrida, vai ao encontro da surda e não consegue se comunicar com ela apesar dos berros em pleno ambiente de trabalho. A surda, sabiamente opta por desviar o olhar da situação – tirando partido de sua deficiência como auto-defesa, e fim de história. Magistral!

O filme é de Neil LaBute e coleciona inúmeros prêmios, como o melhor filme do Sundance Film Festival de 1997.

Uma pérola para quem gosta de tramas bem construídas e desenvolvidas com inteligência e grande poder de persuadir até o mais rigoroso dos expectadores.

Observadores de Pássaros

junho 7, 2008

Pássaros não racionalizam o próprio vôo, simplesmente voam.

Há mais de 15 anos pinto pássaros. Motivo também de meditação na praia, quando também alço vôo só de observá-los, e vivencio instantes de leveza profunda pelo alívio em desviar do corpo que me persegue.

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Ao inaugurar mais uma categoria por aqui, ao invés de críticas, gostaria de exercitar o observador de meios audiovisuais.

Observador no sentido do sujeito que antes de opinar observa com todo o seu ser: Olha e vê, escuta e ouve profundamente como a maioria de nós mau habituou em não praticar.

São portanto escritos de auto-educação, autoconhecimento.

A tarefa resume-se em registrar impressões sensíveis sobre: o cinema, o vídeo, o documentário e o webvídeo que elaboro especialmente para veiculação na internet na categoria : FILMES e publico na categoria : TERRA VIRTUAL. A produção inaugural trata-se da trilogia em webvídeo: ‘Internet tem Alma’, cuja a 1ª parte intitulada da mesma forma, porém incluindo o ponto de interrogação: Internet tem Alma? , foi publicada aqui no Blog e no Youtube.

Vamos ao exercício de observação quanto ao material audiovisual. Que seja exercício de sensibilidade, compreensão e convergência.

Volto ‘Na Companhia de Homens’, filme de Neil LaBute, 1997. ; )