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Home

agosto 12, 2010

A dica boa para o final de semana que está chegando é pipoca com Home.

Home é um documentário de 2009, do diretor Yann Arthus-Bertrand e do produtor Luc Besson, sobre a degradação do planeta Terra e a influência do homem neste processo. Em toda a história de nossa civilização, jamais tanto foi degradado em tão pouco tempo.

Se hoje nos vangloriamos por tantos avanços tecnológicos e sociais, deveríamos refletir mais profundamente pra perceber que o grande desafio de nossas vidas está em sair do campo das retóricas sensacionalístas que serviram apenas ao imperialísmo de um progresso destruidor, e reorientar a inteligência para o único desafio que realmente faz sentido, que é a constituição de uma política global de uso compartilhado das energias terrestres que não mais deflore o planeta! Que não mais destrua. Ao contrário, é da maior emergência que comecemos a construir uma nova realidade que restitua à Terra e aos homens condições de sobrevivência compatíveis com a inteligência que se propaga ter alcançado.

Como agir mediante o problema? Um planeta que perdeu boa parte de seus recursos naturais, degradação que tem provocado alterações geográficas e climáticas sem precedentes, provocando alterações na ordem natural da Vida.

O planeta precisa da atenção de todos, o desafio agora está em saber cuidar da Terra.

A nossa responsabilidade não está em apenas pagar as contas do mês e reproduzir isso até o final de insípidas vidas, para então reconhecermos o quão negligentes fomos e nos alentarmos com um ‘mea culpa’ qualquer. Se assim caminharmos, nem a um fim hipócrita teremos direito. E apesar de todo o drama, este não é aparente, é realidade. É bom que assim seja, talvez desperte quem se acostumou a sucessivamente não encarar seus dramas de frente,  buscando subterfúgios de todos os tipos, produção de uma sociedade que prefere a ilusão de uma cultura de entretenimentos supérfluos: celebridades, comida, drogas, sexo e consumo excessivos. Um materialismo exacerbado, onde o homem abre mão de sua porção espiritual não há como transcender a consciência, não havendo como existir de verdade. Eis o atual estágio de consciência de boa parte da humanidade, um grande retrocesso existencial, uma vez que anula a evolução anula a vida. Todos temos responsabilidade perante a Terra. Portanto precisamos juntos mudar esta realidade que só tem acarretado destruição e miséria, em todos os sentidos.

Home, aborda a exuberância da geração de vida no planeta, a interligação de tudo formando um sistema onde a energia clama por uma consciência de compartilhamento, antes que seja tarde demais. E disso estamos muito próximos, calculam os especialístas que não temos mais do que uma década para mudar a situação. Mostra ainda exemplos de políticas nacionais de aproveitamento da energia solar ‘cultivar o sol’ (Alemanha), ou energia eólica (Dinamarca) atingindo de 15 a 20% da energia consumida. Menciona a exemplar postura de neutralidade bélica da Costa Rica, onde os investimentos massivos saíram do armamento, reorientado à restauração da vida no reflorestamentos de áreas desmatadas e na ampliação da educação à toda população.

Via Láctea 1

abril 26, 2009

 

O filme, Via Láctea, foi escrito por Buñuel e Jean-Claude Carrière, tem 100 mins de duração e revela um misto de gêneros: drama-histórico, comédia. A dupla produziu uma verdadeira obra de mestres.

 

Se por um lado o filme me atraiu por transmitir a lógica sócio-política e religiosa da idade média, com base na Espanha e França (ainda que não se trate da compreensão do espírito da época, por agora me satisfaz tal lógica), por outro me seduziu por completo pela hilária relação entre os dois vagabundos, que rumam para o Caminho de Santiago, e os homens do Poder: monarcas, padres e defensores da lei.

 

Relação que expôs a histórica heresia da igreja católica e sua decadência em contraste à autenticidade dos vagabundos andarilhos. Ainda que tenham deslizado em isolado delito, o roubo do presunto, este baseou-se em princípio autêntico, a fome. A autenticidade dos vagabundos está presente em toda a trama através da significativa caminhada pela sobrevivência associada a um sugerido desejo de transcendência na busca pelo caminho sagrado. Ao fim, contrapõem-se: a constante movimentação dos vagabundos-andarilhos, ao delírio intelectual e inércia dos senhores do Poder.

 

Desconcertante é a construção arrebatadora que relaciona o surrealismo ao dogmatismo de maneira a desembocar na confusão dos princípios que naturalmente se traduz em loucura (esta, aqui, nada tem de pura, é justo o seu contrário).

 

Aos vagabundos é reservado um destino puro, rumo aos mistérios da vida enquanto movimentam-se e a descobrem em meio a caminhada. Aos senhores dos poderes dogmáticos e unilateralidade intelectual, resta o desencontro com os mais básicos princípios da vida. Natural parece portanto, o encontro com a loucura.

Laranja Mecânica e Autonomia Política

junho 29, 2008

O Filme da vez..

Do original : ‘A Clockwork Orange’, de Stanley Kubrick, rodado em 70 e lançado em 1971.

Vi este filme pela primeira vez na adolescência, há uns 20 anos. Pela crítica social que implica me senti como que em catarse. Exatamente o mesmo ocorreu poucos anos depois quando assisti: ‘Saló 120 dias de Sodoma’ de Pasolini.

Adorei a plástica psicodélica das ambientações e figurinos de Laranja Mecânica, um misto de jardim de infância com cheiro de sexo e rebeldia, enfatizado pelos acessos de selvageria intelectualizada expressas com primor por Malcolm McDowell. Era tudo o que eu acreditava precisar para externar a minha própria fúria mediante um mundo que entendia como algoz.

Muita coisa mudou de lá para cá.

Primeiro, o filme não me atiça o instinto como antes. Segundo, vejo com clareza que apesar de todo o culto a violência, no qual investimos de várias formas, o mundo não é a porcaria que eu enxergava há duas décadas atrás. Apesar dos pesares, tenho em alta conta os seres humanos e um mundo não se constrói por si só.. No final das contas a responsabilidade é sempre nossa: atuando, concebendo, reagindo, omitindo, fugindo, alienando ou construindo.

Pr’ além da ingenuidade assim como da ignorância dos tempos de juventude – independente se um mal do próprio espírito, contexto familiar, genética ou ambas as alternativas, como acredito ser – o importante é perceber a gênese do julgamento, instrumento da moral em que se baseia uma sociedade que desconhece a própria natureza.

É sempre um bálsamo lembrar de Madre Teresa de Calcutá: ‘Quem julga não tem tempo pra amar’.

Era aí que eu gostaria de chegar. Ao julgarmos utilizamos o tal senso crítico para nos separar do que possuímos de mais genuíno : o sentimento natural de compaixão que nos reune ao semelhante, ou à nós mesmos. Ao criticar e não compreender, mergulhando nas dores e misérias alheias, assim como nas próprias (por que também é comum julgarmos a nós mesmos de maneira cruel e implacável), estamos construindo uma sociedade moralista e preconceituosa, que não enxerga além de preceitos sociais separativístas, barganhando a própria humanidade – nossos valores e potenciais intrínsecos – pela ilusão de segurança que nem a saga que a corrupção política desenvolveu e desenvolve durante toda a sua história, é capaz de encerrar.

Laranja Mecânica não faz o mesmo sentido pra mim. Sem sombra de dúvidas é um filme maravilhosamente realizado. O argumento é baseado na corrupção sócio-política, delinquência juvenil e desumanidade sem limite. Infelizmente ainda se sustenta através investimos massivos numa filosofia de vida que ao meu ver já nos revelou o que tinha pra revelar. Eis aqui um retrato de nossa sociedade tão atual quanto há quase 40 anos, época do lançamento do filme.

Por outro lado eu fui além daquela compreensão juvenil quando aprendi a escoar a minha própria selvageria adquirindo nova consciência dos fatos que reprimiam o meu espírito. Penso que a partir do momento em que percebemos a nossa participação no enredo da vida, os horizontes se alargam sem mais chance de se estreitarem. Neste caso, fica claro e cristalino quando estamos simplesmente reagindo a ação de outros ou quando estamos inspirados pela nossa própria natureza a conceber uma vida independente e paralela: o nosso caminho de origem e propriedade.

Criticar ou reprimir são paradoxos os quais a Humanidade precisa se ver livre, uma vez que investe-se energia vital naquilo que não se deseja desenvolver ao invés de investir nos próprios interesses. Ao fazer desta atitude rotina, já era a energia pra se realizar os próprios sonhos.

Uma vez redirecionada a energia, caminha-se adiante. Vale a pena refletir com coragem, simplidade e desapego :

Onde, por natureza e propriedade se encontram os nossos verdadeiros interesses e sonhos?