Archive for the ‘Filme e Vídeo’ Category

Home

agosto 12, 2010

A dica boa para o final de semana que está chegando é pipoca com Home.

Home é um documentário de 2009, do diretor Yann Arthus-Bertrand e do produtor Luc Besson, sobre a degradação do planeta Terra e a influência do homem neste processo. Em toda a história de nossa civilização, jamais tanto foi degradado em tão pouco tempo.

Se hoje nos vangloriamos por tantos avanços tecnológicos e sociais, deveríamos refletir mais profundamente pra perceber que o grande desafio de nossas vidas está em sair do campo das retóricas sensacionalístas que serviram apenas ao imperialísmo de um progresso destruidor, e reorientar a inteligência para o único desafio que realmente faz sentido, que é a constituição de uma política global de uso compartilhado das energias terrestres que não mais deflore o planeta! Que não mais destrua. Ao contrário, é da maior emergência que comecemos a construir uma nova realidade que restitua à Terra e aos homens condições de sobrevivência compatíveis com a inteligência que se propaga ter alcançado.

Como agir mediante o problema? Um planeta que perdeu boa parte de seus recursos naturais, degradação que tem provocado alterações geográficas e climáticas sem precedentes, provocando alterações na ordem natural da Vida.

O planeta precisa da atenção de todos, o desafio agora está em saber cuidar da Terra.

A nossa responsabilidade não está em apenas pagar as contas do mês e reproduzir isso até o final de insípidas vidas, para então reconhecermos o quão negligentes fomos e nos alentarmos com um ‘mea culpa’ qualquer. Se assim caminharmos, nem a um fim hipócrita teremos direito. E apesar de todo o drama, este não é aparente, é realidade. É bom que assim seja, talvez desperte quem se acostumou a sucessivamente não encarar seus dramas de frente,  buscando subterfúgios de todos os tipos, produção de uma sociedade que prefere a ilusão de uma cultura de entretenimentos supérfluos: celebridades, comida, drogas, sexo e consumo excessivos. Um materialismo exacerbado, onde o homem abre mão de sua porção espiritual não há como transcender a consciência, não havendo como existir de verdade. Eis o atual estágio de consciência de boa parte da humanidade, um grande retrocesso existencial, uma vez que anula a evolução anula a vida. Todos temos responsabilidade perante a Terra. Portanto precisamos juntos mudar esta realidade que só tem acarretado destruição e miséria, em todos os sentidos.

Home, aborda a exuberância da geração de vida no planeta, a interligação de tudo formando um sistema onde a energia clama por uma consciência de compartilhamento, antes que seja tarde demais. E disso estamos muito próximos, calculam os especialístas que não temos mais do que uma década para mudar a situação. Mostra ainda exemplos de políticas nacionais de aproveitamento da energia solar ‘cultivar o sol’ (Alemanha), ou energia eólica (Dinamarca) atingindo de 15 a 20% da energia consumida. Menciona a exemplar postura de neutralidade bélica da Costa Rica, onde os investimentos massivos saíram do armamento, reorientado à restauração da vida no reflorestamentos de áreas desmatadas e na ampliação da educação à toda população.

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Via Láctea 1

abril 26, 2009

 

O filme, Via Láctea, foi escrito por Buñuel e Jean-Claude Carrière, tem 100 mins de duração e revela um misto de gêneros: drama-histórico, comédia. A dupla produziu uma verdadeira obra de mestres.

 

Se por um lado o filme me atraiu por transmitir a lógica sócio-política e religiosa da idade média, com base na Espanha e França (ainda que não se trate da compreensão do espírito da época, por agora me satisfaz tal lógica), por outro me seduziu por completo pela hilária relação entre os dois vagabundos, que rumam para o Caminho de Santiago, e os homens do Poder: monarcas, padres e defensores da lei.

 

Relação que expôs a histórica heresia da igreja católica e sua decadência em contraste à autenticidade dos vagabundos andarilhos. Ainda que tenham deslizado em isolado delito, o roubo do presunto, este baseou-se em princípio autêntico, a fome. A autenticidade dos vagabundos está presente em toda a trama através da significativa caminhada pela sobrevivência associada a um sugerido desejo de transcendência na busca pelo caminho sagrado. Ao fim, contrapõem-se: a constante movimentação dos vagabundos-andarilhos, ao delírio intelectual e inércia dos senhores do Poder.

 

Desconcertante é a construção arrebatadora que relaciona o surrealismo ao dogmatismo de maneira a desembocar na confusão dos princípios que naturalmente se traduz em loucura (esta, aqui, nada tem de pura, é justo o seu contrário).

 

Aos vagabundos é reservado um destino puro, rumo aos mistérios da vida enquanto movimentam-se e a descobrem em meio a caminhada. Aos senhores dos poderes dogmáticos e unilateralidade intelectual, resta o desencontro com os mais básicos princípios da vida. Natural parece portanto, o encontro com a loucura.

Via Láctea 2

abril 26, 2009
Mané Dengoso e seu Lagarto Escabroso - Pintura / 2003 / Andrea
– Mané Dengoso e seu Lagarto Escabroso – Pintura mista s. tela / 2003 / Andrea


Quando estive em Santiago de Compostela, não havia qualquer intenção em peregrinar. Fizemos o caminho todo de carro.

 

Estivera na Bretanha pra conhecer a família de meu namorado. Em seguida retornamos à Alès para restaurar algumas pinturas que vieram do Brasil para minha individual, Brinquedos, que ocorreria logo após a Bienal de Cerveira em Portugal. A Bienal me convidara à expor o: Mané Dengoso e seu Lagarto Escabroso. Época em que a minha pintura denunciava o formato HQ ou ‘quadrinhos’ que desenvolvo agora de maneira ‘convencional’ – embora nem tanto..

 

Cruzamos de leste à oeste o sul da França, no limiar do norte da Espanha, e pernoitamos numa aconchegante casa de pedras. Uma única noite de estadia e tive um sonho que se realizou com o nascimento de minha sobrinha, Estela. Não sabia ainda, mas minha irmã havia vencido questões pessoais que a afastavam da possibilidade de engravidar da nossa tão evocada caçulinha. Não foi apenas uma visão iluminada, significou uma grande vitória de minha irmã.

 

O título do filme de Buñuel, Via Láctea, é referência a Santiago de Compostela, do latim, Campus Stellae, ou Campo das Estrelas. Remete a luminosidade que, dizem, sinaliza as estrelas que estão sob a tumba do Santo. Assim como a Via Láctea produz um traço estrelar, diz-se que o Caminho de Santiago reproduz este traçado na Terra. Por isso, ele é também conhecido como Via Láctea.

 

Um caminho sagrado simboliza, a grosso modo, o enfrentamento dos desafios pessoais que naturalmente podem conduzir à uma elevação de consciência devido a transmutação de paradigmas.

 

Há pouco tempo percebi a relação intrínseca do nome: Compostela e da Estela. O nome de minha sobrinha (de apenas 3 anos) tão querida, amada e ‘comparsa’ ; ), significa estrela… A isso o senso-comum  chama de coincidência. De minha parte como não participo de qualquer ‘seita cultural’, sou apenas eu e o mistério da vida, prefiro no encaminhar da mesma observar qual o sentido do sinal.

 

Afinal, se o meu corpo produz dores, efeitos que traduzem causas diretas e indiretas, por que o mesmo não ocorreria em relação a Natureza, se somos a micro realidade de sua macro existência?

 

Por que eu tive o privilégio de ver a minha pequena antes de qualquer pessoa, há prováveis 8 meses de seu nascimento? Por quê? Pra quê? Como? Seria adequado compreender ou apenas observar? De novo.. Porquê?

 

Sonhos proféticos eram bem mais comuns em minha infância do que na vida adulta. Há poucos anos analiso o processo e por ele mais facilmente me reencontro através da meditação. É lá no vácuo de minha existência física, que reequilibro todos os níveis corporais, apta a vislumbrar uma realidade que não depende apenas da visão e demais sentidos – é certamente de outra ordem. Mas isso é outra história..

ToKyo GA – Wim Wenders

setembro 22, 2008

Tokyo GA – Documentário. 91 mins – Wim Wenders com participação de Werner Herzog.

 

É mais um documentário em que Wim Wenders desenvolve a sua preocupação quanto a perda da identidade, utilizando a sociedade japonesa moderna como contra-ponto aos filmes do cineasta Yasujiro Ozu, em busca da Tokyo perdida.

 

Na base do enredo temos a profusão das imagens audiovisuais perdidas em seu sentido, capturadas por Wim, desde o telão mudo do avião em que viajou para o Japão, até as inúmeras televisões encontradas por toda parte num país que parece completamente hipnotizado por imagens sem sentido. O que é revelado pelas tvs sem som, posicionadas nas ruas sem qualquer audiência, interesse, função.. Um paralelo que podemos encontrar facilmente por aqui são as tvs mudas em bares e restaurantes.

 

É bom lembrar que o diretor deixa claro desde o início que suas impressões quanto ao documentário, Tokyo GA, apesar das especificidades naturais da cultura local, cada vez mais remetem ao homem de qualquer parte, perdido num mundo de imagens sem sentido.

 

Ele se questiona e questiona também o diretor Werner Herzog, sobre como poderiam encontrar as verdadeiras imagens do mundo, em tal estágio de contaminação audiovisual. Herzog diz que é preciso uma espécie de escavação para encontrar algo de verdadeiramente autêntico e que gostaria de participar de uma viagem da NASA para Marte, para ver algo de realmente novo. Já Wenders, orienta-se através dos pequenos atos de revolta que as crianças, em meio a rotina do dia-a-dia, expressam. Ele considera estes atos como um retorno às imagens puras e verdadeiramente autênticas dos filmes de Ozu.

 

Outros contra-pontos aos filmes naturalistas de Ozu, são atividades altamente massificadas no Japão, como: o golfe, o pinball e a construção de comida japonesa para vitrines de restaurantes. As comidas são feita de cêra e o processo artesanal é muito próximo a confecção da comida verdadeira. Wenders desejou fechar esta seqüência com imagens dos artistas comendo a comida verdadeira que trazem de casa em meio aquelas que constroem no trabalho. Apesar de óbvio, Wenders confessou não poder deixar de pensar no artesão comendo um sushi de cêra. Mas não lhe foi permitido filmar a equipe almoçando.

 

Incrível o paralelo que Wenders consegue na construção de sua narrativa, ao revelar como o nosso condicionamento pode ser hipnótico, nos fazendo esquecer de nós mesmos, da vida que algum dia tivemos, pelo menos enquanto crianças, quando brincávamos nas praças ou em casa ao ritmo de nossas próprias emoções e vocações interiores.

 

Tokyo GA surgiu enquanto Wenders filmava ‘Paris Texas’. Ele viajou por duas semanas para o Japão, estimulado pelos filmes de Ozu. Conseguiu entrevistar seu câmera e ator mais utilizado, obtendo entrevistas de real sensibilidade, amor e respeito pela vida. A equipe de Ozu tinha-o como um sábio, homem simples de poucas palavras, mas que possuía o raro dom de tirar de sua equipe o melhor que cada um poderia dar.

Identidade de Nós Mesmos

setembro 6, 2008

A Notebook on Clothes and Cities – É um documentário delicioso sobre o processo de criação e história de vida do estilista Yohji Yamamoto, entrecruzada pelas experiências e questionamentos do cineasta Wim Wenders sobre as possibilidades revolucionárias da imagem digital.

Wim Wenders faz uma série de entrevistas sobre o processo de criação de Yamamoto, sob encomenda do Guggenhein. Paralelamente dialoga com sua pequena câmera digital sobre a revolução de nossa era: a dinâmica dos centros urbanos em pleno período de efervescência da comunicações e mídias, e a possibilidade de num futuro próximo (hoje), os grandes artistas serem oriundos do mundo dos games, artes digitais, tecnologia.

Destaco : A duplicação do ponto de vista do realizador, naturalmente ampliando as perspectivas da recepção. Explico: é formidável a maneira como Wenders produz a colagem dos audiovisuais, através da utilização da câmera digital como mais um ponto de vista (representante de seus questionamentos subjetivos), associado (colado) à filmagem orientada formalmente pelo propósito biográfico das entrevistas. Um paralelismo inspirado.

Ciência e arte, enfim reunidas?

O documentário tem 19 anos e nos revela a enorme sensibilidade e vigor poético deste singular cineasta.

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Do inglês: Notebook on Clothes and Cities –

Título Original: Aufzeichnungen zu Kleidern und Städten
Traduzido para o Português como: Identidade de Nós Mesmos

Direção: Wim Wenders/ Ano: 1989 / País: Alemanha /Duração: 79 mins /Formato: Documentário – Cor.

Que Viva México! – Eisenstein

julho 5, 2008

1931/1979 – Direção de Sergey Eisenstein – Produção: Grigory Alexandrov – Fotografia : Eduardo Tisse – Reconstrução : Grigory Alexandrov – Nikita Orlov. 85 mins. – p e b.

Da filmagem até a edição finalizada foram-se quase 50 anos. Problemas com a produção em Hollywood acabaram por inviabilizar a edição e infelizmente Eisenstein não pode editar o seu filme e faleceu antes de vê-lo pronto. Em 1979 Alexandrov editou a versão definitiva obedecendo fielmente ao projeto original, através das enormes anotações e storyboard de Eisenstein.

O produto final possui o espírito e talento do cineasta que nos revela um México encantador, brutal, passional, mágico e surreal. Das violentas touradas e expurgo animal dos instintos humanos, passando pela sensual extração da seiva dos cactos por sucção; imagens exóticas nos desertos de Tehuantepec e o envolvente ‘Dia dos Mortos’ que perpetua uma divertida imagem da caveira como alegoria festiva presente em taças, máscaras ou esculpidas no chocolate alimentando sonhos e prazeres de crianças sorridentes.

É um filme belíssimo cuja a narração característica de Eisenstein, dedica-se à exposição de pequenas histórias num misto de documentário e ficção bem acasalados.

Que Viva México é um filme narrado com vigor e pedagogia suficiente para se fazer pensar até os mais preguiçosos expectadores. Imagens sedutoras construídas com rigor, numa verdadeira colcha de retalhos que caracteriza a riqueza histórica e cultural revelada por sua orientação política e social. São dramas de vida e morte que pulsam visceralmente.

A condição do filme em preto e branco me fugiu por completo em função da imaginação fortemente atiçada pela linguagem desenvolvida. Enfatizo os enquadramentos e detalhamento na composição das imagens. Confesso que, mesmo sabendo que o filme fora rodado por completo em p e b, revi várias sequências do deserto de Tehuantepec em busca da sensação que me impregnou o espírito de tons terra, por vezes árido ou cru e até avermelhado pelo gosto final de sangue, chocolate de caveiras e sorrisos ensolarados.

Da simplicidade de seus recursos ao esmero da narrativa, estruturação e costura fílmica(montagem), Eisenstein é sempre uma aula de visualidade, observação e vida.

 

Laranja Mecânica e Autonomia Política

junho 29, 2008

O Filme da vez..

Do original : ‘A Clockwork Orange’, de Stanley Kubrick, rodado em 70 e lançado em 1971.

Vi este filme pela primeira vez na adolescência, há uns 20 anos. Pela crítica social que implica me senti como que em catarse. Exatamente o mesmo ocorreu poucos anos depois quando assisti: ‘Saló 120 dias de Sodoma’ de Pasolini.

Adorei a plástica psicodélica das ambientações e figurinos de Laranja Mecânica, um misto de jardim de infância com cheiro de sexo e rebeldia, enfatizado pelos acessos de selvageria intelectualizada expressas com primor por Malcolm McDowell. Era tudo o que eu acreditava precisar para externar a minha própria fúria mediante um mundo que entendia como algoz.

Muita coisa mudou de lá para cá.

Primeiro, o filme não me atiça o instinto como antes. Segundo, vejo com clareza que apesar de todo o culto a violência, no qual investimos de várias formas, o mundo não é a porcaria que eu enxergava há duas décadas atrás. Apesar dos pesares, tenho em alta conta os seres humanos e um mundo não se constrói por si só.. No final das contas a responsabilidade é sempre nossa: atuando, concebendo, reagindo, omitindo, fugindo, alienando ou construindo.

Pr’ além da ingenuidade assim como da ignorância dos tempos de juventude – independente se um mal do próprio espírito, contexto familiar, genética ou ambas as alternativas, como acredito ser – o importante é perceber a gênese do julgamento, instrumento da moral em que se baseia uma sociedade que desconhece a própria natureza.

É sempre um bálsamo lembrar de Madre Teresa de Calcutá: ‘Quem julga não tem tempo pra amar’.

Era aí que eu gostaria de chegar. Ao julgarmos utilizamos o tal senso crítico para nos separar do que possuímos de mais genuíno : o sentimento natural de compaixão que nos reune ao semelhante, ou à nós mesmos. Ao criticar e não compreender, mergulhando nas dores e misérias alheias, assim como nas próprias (por que também é comum julgarmos a nós mesmos de maneira cruel e implacável), estamos construindo uma sociedade moralista e preconceituosa, que não enxerga além de preceitos sociais separativístas, barganhando a própria humanidade – nossos valores e potenciais intrínsecos – pela ilusão de segurança que nem a saga que a corrupção política desenvolveu e desenvolve durante toda a sua história, é capaz de encerrar.

Laranja Mecânica não faz o mesmo sentido pra mim. Sem sombra de dúvidas é um filme maravilhosamente realizado. O argumento é baseado na corrupção sócio-política, delinquência juvenil e desumanidade sem limite. Infelizmente ainda se sustenta através investimos massivos numa filosofia de vida que ao meu ver já nos revelou o que tinha pra revelar. Eis aqui um retrato de nossa sociedade tão atual quanto há quase 40 anos, época do lançamento do filme.

Por outro lado eu fui além daquela compreensão juvenil quando aprendi a escoar a minha própria selvageria adquirindo nova consciência dos fatos que reprimiam o meu espírito. Penso que a partir do momento em que percebemos a nossa participação no enredo da vida, os horizontes se alargam sem mais chance de se estreitarem. Neste caso, fica claro e cristalino quando estamos simplesmente reagindo a ação de outros ou quando estamos inspirados pela nossa própria natureza a conceber uma vida independente e paralela: o nosso caminho de origem e propriedade.

Criticar ou reprimir são paradoxos os quais a Humanidade precisa se ver livre, uma vez que investe-se energia vital naquilo que não se deseja desenvolver ao invés de investir nos próprios interesses. Ao fazer desta atitude rotina, já era a energia pra se realizar os próprios sonhos.

Uma vez redirecionada a energia, caminha-se adiante. Vale a pena refletir com coragem, simplidade e desapego :

Onde, por natureza e propriedade se encontram os nossos verdadeiros interesses e sonhos?

Na Companhia de Homens

junho 8, 2008

‘Na Companhia de Homens’ é um filme que me impressionou. A grosso modo ele fala de manipulação, mas vai muito mais longe. Trata-se de um filme aparentemente despretensioso, mas que surpreende pela enorme categoria com a qual tira partido de uma construção narrativa impecavelmente bem elaborada.

Planos e roteiro muito bem arquitetados, diálogos inteligentes, cenas produzidas sob medida, sem o menor desperdício.

A opção pelo preto e branco que impregna as cenas de rigor estético – ao invés de limitar, surpreendentemente empresta certa atemporalidade à composição. Show!

A trama é engraçada, dramática e sarcasticamente instigante. Vou desenvolver o raciocínio sobre a narrativa, mas não vou dar ‘o pulo do gato’ da trama por que não quero ser estraga prazer. O filme merece ser degustado sem maiores interferência.

Dois colegas de trabalho, chutados por suas respectivas companheiras, resolvem se vingar das mulheres orientando todo o ódio que nutrem por elas focando em uma mulher frágil e ainda por cima surda. Uma jovem que possui recalques face a própria deficiência, torna-se a vítima perfeita pela qual esperavam.

É verdade que eu cheguei a duvidar quando o bonitão do filme revelou ao amigo e colega de trabalho que sua companheira de mais de 4 anos o havia largado. Cá entre nós, naquele princípio de filme e poucas referências no ar, querendo ou não as aparências tem o seu momento chave resguardado de maiores(ou menores) conotações. E aquele era o tipo de homem que terminaria com as convicções de qualquer solteira convicta. Mas no que o filme vai se desenvolvendo, você vai percebendo um ‘babaca profissional’ em forma de Apolo. Nem tudo é perfeito. A escolha do ator sim, foi – deliciosamente – magistral. Ele encarna um sujeito que aos poucos vai se revelando especulativo e manipulador, embora transmita desde as primeiras cenas ser alguém seguro de si. O que obviamente não significa equilibrado, mas de relance pode ser compreendido como tal.

O outro sujeito, seu amigo de vingança, torna-se chefe de equipe, o que inclui comandar o Apolo-babaca (desculpem, mas a quem interessar nomes de atores, o Google pode dar conta do serviço, o nosso negócio aqui são impressões sensíveis acerca da narrativa e construção audiovisual).

O chefe é um cara sem sal, perguntem a qualquer mulher e não darão mais que isso. Mas também um ator muito bem orientado pelo perfil de seu personagem, desempenhando seu papel com dignidade.

Ao iniciarem, em paralelo, as investidas sobre a jovem deficiente, o Apolo leva larga vantagem, como qualquer pessoa poderia presumir sem qualquer presunção, era possibilidade certa. Mas o chefinho sem sal também sai com a moça. Não tarda para que descubramos que há muito ela não tem relações com homens – como o Apolo havia vislumbrado ser o tipo de mulher ideal para que o plano fosse realmente fatal à vítima escolhida.

Ao perceber que o chefinho sem sal estava se interessando verdadeiramente por ela, a moça que já mantinha relações íntimas com Apolo, revela ao chefinho que há muito não se sentia desejada pelos homens e que portanto ultrapassara os limites da conveniência ao aceitar sair com dois ao mesmo tempo. Ela então resolve dispensá-lo, mas ele não se contém e resolve dar pra trás no jogo arquitetado com o Apolo, revelando à moça toda a armação.

Seguindo a lógica do Apolo, eles deixariam a vítima se apegar para depois abandoná-la sumariamente a própria infelicidade. Assim estariam vingados de suas respectivas ex-mulheres, ou melhor: vacas, como mencionara repetidas vezes.

Além de babaca o Apolo é realmente personagem múltiplo, ele revela toda a sua dualidade ao manipular um de seus subordinados instigando-o a abaixar as calças demonstrando, literalmente ter culhões para integrar a empresa. Embora a atitude revele o lado negro do ‘bonitão profissional’, muito antes de descobrirmos que Apolo manipulara até mesmo seu

velho colega de trabalho, a cena é mais um indício de que Apolo tem profundos complexos. Informação muito bem plantada com o auxílio de cortinas que restringem a visão do ambiente e criam um clima de maior intimidade e intimidação entre o patrão e o subordinado.

Mas o pior ainda estava por vir e desabou sobre o chefe sem sal e a jovem surda, quando este se viu apaixonado pelo alvo da vingança enquanto a percebia literalmente ‘de quatro’ por seu amigo.

Daí em diante desandou tudo num enredo de carências mútuas em manipulações sem quaisquer pudores, orquestradas pela ambição desmedida de Apolo por ascenção no trabalho. Apesar de Apolo ter conquistado o posto de seu colega tornando-se o chefe da vez, seu sorriso e indiferença as carícias da companheira mais remetem à insanidade de sua solidão interior do que ao triunfo profissional.

Por outro lado a cena final é maravilhosa. O ex-chefe sem sal, desesperado pela traição sofrida, vai ao encontro da surda e não consegue se comunicar com ela apesar dos berros em pleno ambiente de trabalho. A surda, sabiamente opta por desviar o olhar da situação – tirando partido de sua deficiência como auto-defesa, e fim de história. Magistral!

O filme é de Neil LaBute e coleciona inúmeros prêmios, como o melhor filme do Sundance Film Festival de 1997.

Uma pérola para quem gosta de tramas bem construídas e desenvolvidas com inteligência e grande poder de persuadir até o mais rigoroso dos expectadores.

Observadores de Pássaros

junho 7, 2008

Pássaros não racionalizam o próprio vôo, simplesmente voam.

Há mais de 15 anos pinto pássaros. Motivo também de meditação na praia, quando também alço vôo só de observá-los, e vivencio instantes de leveza profunda pelo alívio em desviar do corpo que me persegue.

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Ao inaugurar mais uma categoria por aqui, ao invés de críticas, gostaria de exercitar o observador de meios audiovisuais.

Observador no sentido do sujeito que antes de opinar observa com todo o seu ser: Olha e vê, escuta e ouve profundamente como a maioria de nós mau habituou em não praticar.

São portanto escritos de auto-educação, autoconhecimento.

A tarefa resume-se em registrar impressões sensíveis sobre: o cinema, o vídeo, o documentário e o webvídeo que elaboro especialmente para veiculação na internet na categoria : FILMES e publico na categoria : TERRA VIRTUAL. A produção inaugural trata-se da trilogia em webvídeo: ‘Internet tem Alma’, cuja a 1ª parte intitulada da mesma forma, porém incluindo o ponto de interrogação: Internet tem Alma? , foi publicada aqui no Blog e no Youtube.

Vamos ao exercício de observação quanto ao material audiovisual. Que seja exercício de sensibilidade, compreensão e convergência.

Volto ‘Na Companhia de Homens’, filme de Neil LaBute, 1997. ; )